BC: Copom decide manter taxa Selic em 2% ao ano

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)
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Crédito: Reprodução/BC

Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou nesta quarta (9) que irá manter a taxa Selic em 2% ao ano, patamar que representa a mínima histórica.

Foi a última reunião do comitê no ano. A decisão, unânime, era aguardada pelo mercado.

Em meio ao aumento da inflação de alimentos que começa a estender-se para outros setores e da alta de casos da Covid-19 no país, o Banco Central não mexeu nos juros básicos da economia.

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“No cenário externo, a ressurgência da pandemia em algumas das principais economias tem revertido os ganhos na mobilidade e deverá afetar a atividade econômica no curto prazo”, diz o comunicado do BC.

“No entanto, os resultados promissores nos testes das vacinas contra a Covid-19 tendem a trazer melhora da confiança e normalização da atividade no médio prazo”, acrescenta o documento.

Os dirigentes do Copom ponderam: “Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores recentes sugerem a continuidade da recuperação desigual entre setores, em linha com o esperado.”

“Contudo, prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o período a partir do final deste ano”, diz o comitê.

Copom: inflação

A maior expectativa ficou com o comunicado do comitê.

O cenário de inflação alta no mesmo período em que indicadores como o PIB (Produto Interno Bruto) sugerem a retomada da economia — além da indefinição sobre o orçamento de 2021, reformas e a política do governo sobre gastos públicos – formava um quadro de incertezas.

Em comunicado, o Copom reiterou que o efeito dos preços dos alimentos é temporário, mas ressaltou que a inflação deverá continuar elevada nos próximos meses.

“As últimas leituras de inflação foram acima do esperado”, afirma o documento.

Prossegue o comunicado: “Em dezembro, apesar do arrefecimento previsto para os preços dos alimentos, a inflação ainda deve se mostrar elevada.”

Complementa: “Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, mas segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacente.”

O Copom estimou que a inflação oficial fechará 2020 em 4,3%, caindo para 3,4% em 2021 e 2022.

Esse cenário pressupõe dólar partindo de R$ 5,25 e evoluindo segundo o poder de compra internacional, além de juros básicos de 2% ao ano ao fim de 2020, 3% ao ano no decorrer de 2021 e 4,5% ao ano em 2022.

O BC diz que as expectativas de inflação para 2022 estão em torno da meta.

Riscos fiscais

Mas a manutenção da taxa no patamar atual não está garantida, observa o comitê. Pode mudar em breve, assinala o Copom — mas não vai cair mais.

O comunicado do Copom enfatiza riscos fiscais e a importância de destravar a agenda reformista.

O BC diz que questionamentos sobre reformas e ajuste das contas públicas podem elevar juro estrutural e que o risco fiscal elevado segue criando assimetria altista no balanço de risco

O prolongamento de medidas da pandemia ou frustração com reformas podem elevar prêmio de risco, diz o Copom.

O BC diz que as condições do forward guidance seguem satisfeitas, mas em breve podem não estar satisfeitas. Mas um eventual retirada do forward guidance, continua o BC, não implica em elevação do juros.

O Copom afirma ainda que a conjuntura continua prescrevendo estímulo extraordinariamente elevado.

Sublinha que o regime fiscal não foi alterado e expectativas de longo prazo seguem ancoradas.

“O Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia”, afirma ainda o comunicado.

“O Comitê ressalta também que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, argumenta o comitê.

Selic: menor nível desde 1986

O último corte da Selic, de 2,25% para 2%, realizado na reunião de agosto, reduziu a taxa ao seu piso histórico.

Na reunião de 16 de setembro, o BC interrompeu a série de nove cortes e manteve a Selic no mesmo patamar.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

No entanto, diante das incertezas fiscais, a expectativa de manutenção dos 2% até meados de 2021 já não se mantém.

Selic em 2%: até quando?

Com a decisão de hoje, a Selic se mantém no menor nível desde o início da série histórica do Banco Central, em 1986.

Em julho de 2015, a taxa chegou a 14,25% ao ano.

Em outubro de 2016, o Copom voltou a reduzir os juros básicos da economia até que a taxa chegasse a 6,5% ao ano em março de 2018.

Em julho de 2019, a Selic voltou a ser reduzida até alcançar 2% ao ano em agosto deste ano.

Estimativa

O que o mercado buscava captar no posicionamento do Banco Central após a reunião é uma estimativa de quando a Selic começará a subir. “O que mais interessa é a ata que vem na próxima terça-feira (15)”, afirma Elias Wiggers, assessor de investimentos e sócio da  EQI Investimentos.

O Bradesco elevou sua projeção da Selic para o final de 2021.

Era de 3,5%, agora é de 4%. Para o banco, retirar parte do estímulo ao crescimento econômico que a taxa representa faz sentido. Isto diante do aumento da inflação e do crescimento mais acelerado do que o esperado no país.

Já o JP Morgan avalia que o Banco Central deve abandonar a sinalização do forward guidance até agosto de 2021, fechando o próximo ano em 3,5%.

Meta de inflação

Para 2020, o Conselho Monetário Nacional fixou meta de inflação de 4%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.

IPCA, portanto, não poderá superar 5,5% neste ano nem ficar abaixo de 2,5%. A meta para 2021 foi fixada em 3,75%, também com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de novembro subiu para 0,89%, acima do registrado em outubro (0,86%) e das projeções do mercado, que previam uma alta de 0,78%.

De acordo com o IBGE, essa é a maior variação para um mês de novembro desde 2015, quando o IPCA foi de 1,01%.

Em novembro de 2019, a variação havia sido de 0,51%.

No Relatório de Inflação divulgado no fim de setembro pelo Banco Central, a autoridade monetária estimava que o IPCA fecharia o ano em 2,1% no cenário base. Esse cenário considera as estimativas de mercado.

A projeção, no entanto, ficou defasada diante do repique da inflação nos últimos meses.

O Boletim Focus do Banco Central trouxe uma forte revisão, para cima, da projeção de inflação para o ano de 2020.

Para 2021, o mercado financeiro reduziu sua estimativa.

A previsão do mercado financeiro para o IPCA passou de 3,54% na semana passada para 4,21%. É a 17ª semana seguida de correção para cima da inflação e já sinaliza a superação da meta do governo para o ano, que é de 4%. Há quatro semanas o mercado esperava uma alta de 3,20%.

Para 2021, a estimativa para a inflação caiu de 3,47% para 3,34%.

Com relação ao PIB, o relatório divulgado nessa segunda-feira (07) também diminuiu levemente a projeção de queda.

A previsão para a taxa básica de juros da economia para este ano se manteve inalterada em 2%. O mesmo aconteceu com 2021, cuja taxa esperada é de 3%

Reunião

Para o fim de 2021, estima-se que a taxa básica chegue a 2,75% ao ano.

O Copom reúne-se a cada 45 dias.

No primeiro dia do encontro são feitas apresentações técnicas sobre a evolução e as perspectivas das economias brasileira e mundial e o comportamento do mercado financeiro.

No segundo dia, os membros do Copom, formado pela diretoria do BC, analisam as possibilidades e definem a Selic.

Referência

A Selic, que serve de referência para os demais juros da economia, é a taxa média cobrada em negociações com títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, registradas diariamente no Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic).

O Banco Central atua diariamente por meio de operações de mercado aberto – comprando e vendendo títulos públicos federais – para manter a taxa de juros próxima ao valor definido na reunião.

Ao manter a Selic no mesmo patamar, o Copom considera que as alterações anteriores nos juros básicos foram suficientes para chegar à meta de inflação, objetivo que deve ser perseguido pelo BC.

Ao reduzir os juros básicos, a tendência é diminuir os custos do crédito e incentivar a produção e o consumo.

Para cortar a Selic, a autoridade monetária precisa estar segura de que os preços estão sob controle e não correm risco de ficar acima da meta de inflação.

Quando o Copom aumenta a Selic, a finalidade é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Meta de inflação

A meta de inflação, definida pelo Conselho Monetário Nacional, é 4% em 2020, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 2,5% e o superior, 5,5%.

Para 2021, a meta é 3,75%, também com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

As instituições financeiras consultadas pelo BC projetam inflação maior que o piso da meta, em 2020.

A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é 2,99%, este ano. Para 2021, a estimativa é 3,10%.

Por que a Selic afeta os investimentos?

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Para o investidor, a Selic deve ser um norte para montar uma boa carteira de investimento. Com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos.

Neste contexto, o mercado de ações ganha destaque, assim como os fundos imobiliários.

Em sentido contrário, quando a Selic sobe, a renda fixa volta a ficar mais atraente.

Selic a 2%: proteja-se da inflação

A primeira recomendação dos especialistas no cenário atual de Selic a 2% é que o investidor proteja sua carteira da inflação, para não perder o poder de compra.

A rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos públicos e CDBs, por exemplo), aponta Paulo Filipe de Souza, assessor de investimento e sócio da EQI. Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

Neste cenário, o destaque entre os títulos fica por conta do Tesouro IPCA+.

Selic a 2%: cuidado com os títulos públicos

A segunda recomendação é ter atenção aos títulos públicos, especialmente se a intenção não for carregar os papéis até o vencimento.

Isto porque estes títulos estão sujeitos à marcação a mercado e, caso sejam vendidos antes do prazo, serão impactados negativamente, como já ocorreu com o Tesouro Selic no mês passado.

A recomendação é sempre levar os papéis até o vencimento, para evitar a volatilidade e as possíveis perdas na negociação no mercado secundário.

Selic a 2%: renda variável segue com mais rentabilidade

Com a Selic mantida nos atuais 2%, os investimentos em renda fixa seguem perdendo atratividade e o investidor precisa buscar alternativas para fazer sua carteira de investimentos crescer. E para não ficar à mercê de perder sua rentabilidade para a inflação, como já dito.

Para o educador financeiro André Massaro, com Selic a 2% não sobra muita alternativa a não ser migrar para a renda variável.

“No momento, a renda fixa atende àquele investidor altamente conservador. A quem realmente só quer proteger o dinheiro e não está muito preocupado com o retorno. Ou, então, àquele que quer montar uma reserva de emergência”, avalia.

Mas, se só o fato de pensar em ações já tira o seu sono, saiba que é possível ser conservador até mesmo na renda variável.

“É preciso perder a visão binária de que renda fixa é para investidor conservador e renda variável para investidor agressivo. Existem nuances de perfis. Tem maneiras de ser conservador ou agressivo na renda variável”, diz.

Para os mais conservadores, que não possuem familiaridade com a bolsa, ele recomenda um início com cautela. Entre as melhores sugestões estão as ações. E também os fundos de ações, os fundos atrelados a índices (ETFs) e os fundos imobiliários.

Cenário pode mudar

Apesar de a renda variável ser a mais atrativa em termos de rentabilidade, com o possível aumento da Selic no ano que vem, a renda fixa volta a ficar interessante.

“Pode haver um pequeno ajuste quanto a isso. Mas sempre vale a máxima de nunca colocar todos os ovos na mesma cesta”, recomenda Mauro Calil, fundador da Academia do Dinheiro.

Calil se refere à necessidade do investidor balancear os investimentos através da diversificação entre renda fixa e variável, garantindo proteção a riscos e também equilíbrio no desempenho dos ativos.

Trajetória da Selic

A taxa atual, de 2%, é a mais baixa já registrada na série histórica, que teve início em 1999. E é resultado de um ciclo de nove cortes recentes da Selic.

Em termos comparativos, em agosto de 2016, a taxa básica era de 14,25%. Mas já chegou a 45%, em março de 1999.

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