BC admite não ter dados ‘sólidos’ sobre o comportamento da economia

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Isto é Dinheiro

“Há muita incerteza sobre o comportamento da economia daqui em diante, pois não se sabe qual será a atitude das pessoas, após a flexibilização das medidas de distanciamento social”.

É o que admitiu o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em live transmitida, no final da tarde dessa quinta-feira (28), em entrevista ao sócio sênior do banco BTG Pactual, André Esteves.

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Temor contagioso

Medo. Esse é o motivo central de preocupação do presidente da autarquia, para quem a tendência é de “as pessoas continuarem em casa, por um bom tempo, devido ao temor da contaminação pela covid-19”, afirma.

Delivery preferencial

A consequência, segundo ele, é que o consumidor deve continuar preferindo consumir itens essenciais, via delivery, ao invés de buscar lojas físicas. Caso esse consumidor saia, “o fará de forma seletiva”.

Carência de dados

“Olhando para os números macro, é muito difícil fazer uma previsão certa, no momento como esse, pois há uma carência de dados, na coleta desses dados, que está muito danificada”, argumenta.

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Segunda onda

Campos Neto vai mais longe e lembra o caso da Coreia do Sul que, depois de levantar o isolamento,  está voltando atrás e admite o retorno de medidas restritivas de deslocamento social, em razão de um surto que pode representar uma ‘segunda onda de contágio”.

Liquidez ainda preocupa

A preocupação central com a liquidez, assinala Campos Neto, levou o BC a tomar medidas de incentivo, como transferência direta, via impostos, mas também de crédito, mediante o programa emergencial, de pagamento de três parcelas de R$ 600 (total de R$ 145 bilhões).

Trabalho extraordinário

“Foi um trabalho extraordinário da Caixa (Caixa Econômica Federal), em que nenhum outro país conseguiu pagar tanta gente e tão rápido”.

Concentração ajuda

O dirigente da autarquia acrescenta que os Estados Unidos – que possui 6 mil bancos –enfrentaram mais dificuldade do que o Brasil. “Essa é uma brincadeira que eu faço, porque nessa hora é bom ter um pouco de concentração do sistema”, ironiza.

Feito o ‘dever de casa’ da liquidez, permanece o problema de crédito para os pequenos, que exige aperfeiçoamentos.

Pouco interesse

Exemplo disso é a baixa demanda da linha de crédito, aberta pelo BC, para financiar a folha de pagamentos das empresas, que só despertou interesse das maiores, na faixa de até R$ 10 milhões.

Dos R$ 40 bilhões previstos nesse programa, apenas R$ 2 bilhões foram demandados pelas empresas. “Está com alcance mais baixo do que o esperado”, reconhece.

Exigência rejeitada

Outro motivo de desinteresse entre pequenas e médias empresas na contratação do programa, admitido pelo próprio Campos Neto, era a exigência governamental de que as empresas não demitissem nesse período.

Em contrapartida, esses segmentos demandaram mais outro programa federal, que financiava o seguro-desemprego, com base em uma certidão previdenciária, que demorou a ser concluída.

Ajustes no forno

“Na próxima semana, esse programa (de financiamento à folha) deverá sofrer ajustes”, avisa.

Espaço fiscal limitado

Ao mesmo tempo, Campos Neto entende que há um ‘espaço fiscal limitado’ que vai requerer um programa ‘mais inteligente possível’, que “identifique ativos com maior liquidez, mas sem gerar grande custo social”.

Medidas de incentivo

Ao pregar “um mandato mais amplo” para consolidar as medidas de ‘injeção de liquidez’, o dirigente da autarquia elencou, a seu ver, as mais significativas:

  • PEC que permite atuar em títulos públicos e privados.
  • Liberação de R$ 135 bilhões de compulsório e outro adicional, de R$ 70 milhões.
  • Flexibilização de LCA (Letras de Crédito do Agronegócio) com potencial de até R$ 2,2 bilhões.
  • Programa de empréstimos, com letras financeiras garantidas.
  • Operação com LCG (plataforma de negociação) com montante total de US$ 650 bilhões, com participação inicial US$ 21 bilhões.
  • Operações compromissadas com títulos soberanos brasileiros, no montante de US$ 50 bilhões, dos quais US$ 25 bilhões já implementados.
  • Operações com DPGE (Depósito a Prazo com Garantia Especial), no total de R$ 200 bilhões, dos quais R$ 3,9 bilhões já consumidos..
  • Linha de crédito com o Fed (Banco Central dos EUA) de US$ 60 milhões.

Debêntures: congestionamento

Também com foco na questão de assegurar crédito às empresas de menor porte, Campos Neto admite que estão sendo elaborados novos estudos para incentivar o mercado de debêntures, antes congestionado.

“Observamos que alguns fundos precisavam vender os seus títulos para obter liquidez e fazer frente aos resgates, mas não estavam conseguindo”, revela, ao admitir que “o crédito líquido passou a ser um problema”.

Choque de spread

Para evitar que ocorra ‘um choque de spread’, devido ao incremento da demanda por crédito, Campos Neto admite que o BC deverá anunciar, em breve, medidas adicionais que facilitem o acesso a recursos por parte de pequenas e médias empresas.

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