Bradesco (BBDC4 BBDC3) vê possível consolidação de bancos digitais

Rodrigo Petry
Editor-chefe, com 18 anos de atuação em veículos, como Estadão/Broadcast, InfoMoney, Capital Aberto e DCI; e na área de comunicação corporativa, consultoria e setor público; e-mail: rodrigo.petry@euqueroinvestir.com.

Crédito: Avanço no pregão foi liderado pela Usiminas e bancos, após forte resultado do Bradesco.

O diretor-presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, disse nesta quarta-feira (5) que o banco digital Next deverá lucrar a partir deste ano e enxerga uma possível “consolidação” do segmento de instituições financeiras. “Este ano, o Next atinge o breakeven, pode ser até o final do ano ou um pouco antes, mas a partir daí começa a gerar resultado”, afirmou Lazari Júnior.

Durante a teleconferência com analistas, o executivo reformou que o objetivo da instituição não é a lucratividade do Next, mas sim competir “em condições de igualdade” com os concorrentes. Especialmente sobre a possível competição entre as agências físicas e virtuais do Bradesco, Lazari Júnior avaliou que não deverá ocorrer uma “canibalização”.

“Grande parte do clientes do Next não tem conta no Bradesco. Então, isso não nos preocupa e, mesmo que acontecesse, é melhor canibalizar estando dentro do Bradesco do que o cliente indo para outro banco digital. Talvez seja um trade off que mais pra frente tenda a acontecer, mas isso não nos preocupa”, afirmou.

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O presidente do Bradesco destacou ainda que, em linhas gerai, os grandes bancos digitais ainda “não fazem resultado”, mas que isso é “quadro normal”. Entretanto, ele diz ao que ao longo do tempo as novas gerações vão buscar cada vez mais por essas instituições.

Para rentabilizar esse negócio de banco digital, o executivo avalia que os ganhos virão da emissão de cartão de crédito, de financiamento imobiliário ou por meio de outros serviços, como de investimentos.

“O importante é que o Next seja um banco no mundo digital completo. Não pensamos no Next sendo um banco com novos produtos”, disse, reforçando que os clientes que buscam contas digitais, em sua grande maioria, também acabam contando com uma conta numa instituição tradicional.

IPO Next?

Lazari Júnior respondeu ainda a questionamentos sobre possíveis parcerias estratégicas, mas afirmou que só fariam sentido se pudesse “agregar conhecimento ou tecnologia”. “Uma parceria só por dinheiro não nos interessaria, pois capital o banco tem para continuar investindo no Next”, afirmou.

Para 2020, ressaltou, a expectativa é de que o banco chegue a 3,5 milhões de clientes. Dessa forma, considerando que cada cliente seja avaliado por US$ 1 mil, o banco digital valeria, conforme Lazari Júnior, cerca de US$ 3,5 bilhões.

“Daí, nós podemos até pensar num IPO (oferta pública de ações, na sigla em inglês), mas não há qualquer projeto nesse sentido”, disse, emendando que este cálculo seria apenas em função do valuation do braço digital.

Salto

Ele acrescentou que o Next apresentou uma expansão vertiginosa de contas, saindo de uma abertura de 1,5 mil para 7 mil por dia. Isso, afirmou, acabou gerando um monte de problemas, como dificuldades de atendimento da demanda por novas contas. Ao final de janeiro, eram 2 milhões de contas.

Dessa forma, o executivo acrescentou que foi estruturada uma área exclusiva com uma equipe de 700 pessoas para resolver os problemas. “Hoje, em 24 horas abrimos uma conta”, diz.

Resultado

Nesta quarta-feira (5), o Bradesco (BBDC4 BBDC3) registrou lucro líquido recorrente de R$ 6,645 bilhões no quarto trimestre do ano passado, uma alta de 14% em comparação ao mesmo período de 2018. Os resultados vieram em linha com as expectativas do mercado.

No ano passado, o lucro líquido recorrente somou R$ 25,887 bilhões, um aumento de 20% sobre 2018. Na comparação com o terceiro trimestre, o lucro recorrente subiu 1,6%.

O lucro líquido recorrente por ação atingiu R$ 3,22, com aumento de 20%.

Já o lucro líquido contábil somou R$ 4,883 bilhões no quarto trimestre de 2019, com queda de 4% ante igual período de 2018.

No ano, o lucro líquido contábil foi de R$ 22,582 bilhões, com recuo de 18%.

O ROAE (retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio) ficou em 21,2% no quarto trimestre do ano passado, ante 19,7% no quarto trimestre de 2018.

A receita de prestação de serviços somou R$ 8,829 bilhões no quarto trimestre de 2019, com aumento de 4,7% na comparação em 12 meses.

O resultado das operações de seguros, previdência e capitalização se destacou, com elevação de 10,1% nos últimos três meses de 2019 em relação ao mesmo período de 2018, atingindo R$ 3,9 bilhões.

Margem com o mercado cai

A margem financeira total atingiu R$ 15,428 bilhões nos últimos três meses de 2019, com alta de 4,4% na comparação com o quarto trimestre de 2018.

Desse total, R$ 12,983 bilhões se referem à margem com os clientes, que teve elevação de 9,2%. Este crescimento foi suportado pela evolução das operações de crédito massificado e pelo melhor resultado do mix de produtos.

Porém, a margem com o mercado, que reflete as operações da tesouraria, ficou em R$ 2,445 bilhões, com declínio de 15,4%, em função da queda das taxas de juros.

Gastos subiram, com destaque para despesas tributárias

Os gastos tributários somaram R$ 2,029 bilhões, com um acréscimo de 10% em relação às despesas do quarto trimestre de 2018.

Outras despesas também aumentaram. O avanço das despesas de pessoal foi de 4,7%, para R$ 5,468 bilhões.

Por sua vez, a linha de outros gastos administrativos subiu 7,7%, para R$ 5,811 bilhões.

Calotes

A carteira de crédito total expandida atingiu R$ 604, 953 bilhões em dezembro último, com aumento de 13,8% na comparação com o final de 2018.

O destaque foi o crescimento de 19,2% dos empréstimos às pessoas físicas, ao passo que o crédito às empresas teve elevação menor, de 10,7%.

No caso das pessoas físicas, os destaques foram os avanços do crédito pessoal, crédito pessoal consignado e CDC/leasing de veículos.

O índice de inadimplência acima de 90 dias ficou em 3,3%, com melhora de 0,3 ponto porcentual no trimestre e de 0,2 ponto em 12 meses, em função de ajustes nos processos de concessão e de recuperação de créditos.

O índice de calotes das pessoas físicas ficou estável em 4,4%, na comparação em 12 meses. O das grandes empresas caiu de 1,5% para 0,8%. Já o de micro e pequenas empresas diminuiu de 4,2% para 3,7%.

As despesas com provisões para créditos de liquidação duvidosa expandida somaram R$ 3,981 bilhões no quarto trimestre de 2019, com alta de 5,2% ante igual período de 2018 e de 19,3% na comparação com o terceiro trimestre do ano passado.

De acordo com o banco, o motivo dessa piora foi o crescimento das operações de crédito e a alteração do mix das carteiras de empréstimos. A evolução dos empréstimos a pessoas físicas e a pequenas e microempresas contam com maiores despesas com descontos concedidos e menores receitas com recuperação de crédito.

Despesas operacionais decepcionam e guidance para 2020

Quanto às metas do banco para 2019, a de crescimento da carteira de crédito expandida, que era de 9% a 13%, superou, com 13,8%.

O mesmo aconteceu com o resultado das operações de seguros, previdência e capitalização, com avançou 12,7%, acima do intervalo de 5% a 9%.

Contudo, o avanço da prestação de serviços, que foi de 3%, ficou na base da faixa, entre 3% e 7%.

As despesas operacionais também decepcionaram, com evolução de 7,2%, contra uma estimativa entre zero e 4%.

Para 2020, o banco projeta crescimento da carteira de crédito expandida de 9% a 13%; da margem financeira entre 4% e 8%; da prestação de serviços de 3% a 7%; das despesas operacionais de até 4%; do resultado das operações de seguros, previdência e capitalização de 4% a 8%; e da PDD expandida de R$ 13,5 bilhões a R$ 16,5 bilhões.

Tá, e aí?

Segundo a analista da Eleven, Tatiana Brandt, de forma geral, o Bradesco entregou um “sólido” crescimento operacional e financeiro em 2019. Os destaques ficaram por conta do avanço de dois dígitos da carteira de crédito, com a inadimplência controlada.

“Para 2020, as esperanças foram renovadas por um guidance que consideramos positivo, dado o ambiente de acirramento da competição de mudanças regulatórias”, escreveu em relatório.

Adicionalmente, a Eleven avalia que o banco deve se beneficiar da retomada mais vigorosa da economia este ano.

“O banco deve conseguir crescer operacionalmente e financeiramente, mesmo em meio ao aumento da competição e mudanças regulatórias, mantendo uma rentabilidade bastante satisfatória”, acrescentou.

A Eleven reiterou a recomendação de compra para BBDC4, como top pick entre os grandes bancos, com preço-alvo para final de 2020 de R$ 44,00 – o que representa um upside implícito de 33%, com base no preço de 4 de fevereiro, que era R$ 33,10.