Balanços: temporada surpreende puxada por e-commerce e exportadoras

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Está chegando ao fim a temporada de balanços do segundo trimestre de 2020 e, diferentemente do que apostavam muitos analistas, os resultados não foram tão ruins, dado o cenário de crise mundial gerado pelo Covid-19.

Para Greco Salvatore Montagna, assessor de mesa de renda variável daEQI Investimentos, o que se viu, na realidade foram resultados que, na média, superaram as expectativas.

“Havia um consenso pessimista por parte dos analistas de que haveria uma queda de 70% do lucro operacional (Ebitda)”, diz. No entanto, ele avalia, as medidas de estímulo monetário e fiscal para famílias e empresas conseguiram atenuar os efeitos da crise.

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Pandemia beneficiou balanços de setores específicos

Em uma análise em bloco, ele aponta que alguns setores tiveram resultados muito favoráveis, caso do varejo, papel e celulose, mineração e siderurgia e proteína.

No varejo, o e-commerce foi impulsionado pelas medidas de distanciamento social, que culminaram em aumento das compras pela internet. E levou junto o setor de papel e celulose, devido a uma demanda crescente por embalagens para as vendas online.

Já mineração, siderurgia e proteína animal tiveram ganhos graças ao aumento da exportação, especialmente para a China – país onde a pandemia teve início e o primeiro a retomar as atividades pós-quarentena.

Em sentido contrário, bancos, aéreas e educação foram os mais afetados. Educação e turismo porque foram diretamente impactados pelas medidas de distanciamento social. E bancos porque registraram queda na carteira de crédito, nas receitas com tarifas e aumento das provisões para devedores.

“É importante o investidor entender que isto é uma fotografia do passado, do trimestre que já acabou. Não quer dizer que vai se perpetuar. Mas é uma constatação dos setores que se beneficiaram ou se prejudicaram nesse processo todo de crise”, diz. “Os que melhor performaram, devem continuar nesse movimento, mas isso não é uma regra”, orienta.

Confira, abaixo, os melhores e piores balanços da temporada, na análise do assessor.

Destaque positivo no varejo: balanços de VVAR3 e MGLU3

Via Varejo (VVAR3) e Magazine Luiza (MGLU3) são os grandes destaques. A operação online cresceu muito e compensou o fechamento das lojas físicas na pandemia. As empresas tiveram dois processos: queda na receita pelo fechamento das lojas e crescimento da operação online. “Foi tão forte o crescimento das vendas online que compensou a queda das lojas físicas”, diz Montagna.

O balanço da Via Varejo registrou um lucro líquido de R$ 65 milhões, revertendo prejuízo de R$ 162 milhões em igual período do ano passado.

O Ebtida (lucro antes de juro, impostos, depreciação e amortização) ajustado somou R$ 555 milhões, uma elevação de 45,7%. E a margem Ebtida atingiu 10,1%, alta de 4,9 pontos percentuais.

Já o Magazine Luiza registrou um prejuízo de R$ 64,5 mi, revertendo lucro de R$ 386,6 milhões no mesmo período de 2019.

No entanto, as vendas cresceram 49% e o e-commerce disparou 182% no período, atingindo R$ 6,7 bilhões e 78% das vendas totais. O Ebtida somou R$ 143,7 milhões.

Prestação de serviço: LWSA3 dispara com migração para o online

No mesmo segmento de varejo, mas em prestação de serviço, o destaque vai a Locaweb (LWSA3), que presta soluções para e-mail, roteamento e hospedagem. A empresa teve uma demanda muito grande no período, porque muitas empresas precisaram migrar para o modelo digital de maneira urgente.

“A Locaweb oferece sistemas prontos para a empresa começar imediatamente no online, então já tinham as ferramentas prontas. Ela teve uma demanda absurda de clientes. É realmente, uma vedete da bolsa, com ações subindo de forma extraordinária”, diz.

A empresa registrou crescimento de 147,8% no lucro líquido do segundo trimestre ao alcançar R$ 12 milhões. No mesmo período do ano passado, o valor foi de R$ 4,8 milhões.

No comparativo semestral, a Locaweb marcou R$ 16,3 milhões no primeiro semestre de 2020 contra R$ 8,2 milhões do primeiro semestre de 2019, alta de 99,1%.

O Ebitda ajustado no segundo trimestre de 2020 alcançou R$ 32 milhões frente os R$ 25,9 milhões de igual período do ano anterior, alta de 23,8%.

Setor de proteína animal é beneficiado pelas exportações

O grande destaque do setor é a Marfrig (MRFG3), reportou Ebitda de R$ 4 bilhões no trimestre, com avanço de 266% na base anual.

“É extraordinário. Parece resultado de setor financeiro, realmente surpreendente”, avalia Montagna.

O resultado se explica pelo aumento nas exportações para China, Estados Unidos, além de aumento do consumo no mercado doméstico.

A empresa teve lucro de R$ 1,6 bilhão, com avanço de 18 vezes sobre os lucros de R$ 87 milhões no mesmo período de 2019. No trimestre anterior, havia registrado prejuízo de R$ 137 milhões.

Setor de papel e celulose é impulsionado pelo e-commerce

A Klabin (KLBN4), destaque do setor, foi favorecida no segundo trimestre por fabricar papelão, além da celulose, muito demandado para embalagens do e-commerce. “Uma coisa puxa a outra. Um setor puxou o outro nesta crise”, explica o assessor.

A empresa registrou prejuízo líquido de R$ 383 milhões no segundo trimestre de 2020 frente os R$ 72 milhões de lucro em igual período em 2019.

Já o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) subiu 39%, com R$ 1,333 bilhão no segundo trimestre de 2020 ante igual período do ano anterior.

A receita líquida alcançou R$ 2,956 bilhões no segundo trimestre de 2020, e o fluxo de caixa livre ajustado atingiu R$ 1,37 bilhão, superando os R$ 2,6 bilhões dos últimos doze meses.

VALE3 se beneficia com exportação de minério de ferro para a China

A Vale (VALE3) reportou um lucro líquido de R$ 5,289 bilhões no segundo trimestre, revertendo prejuízo de R$ 384 milhões de um ano antes. Em relação ao primeiro trimestre deste ano, o lucro avançou 437%, já que havia sido de R$ 984 milhões.

O Ebitda ajustado somou R$ 18,112 bilhões. O que representa alta de 48,3% na comparação anual. E de 40,1% na trimestral.

Apesar de ainda ter a imagem arranhada desde o desastre de Brumadinho, a companhia tem feito um bom trabalho de gestão, suspendendo dividendos e amortizando as dívidas de curto prazo.

“O minério de ferro também subiu muito, porque uma das poucas economias do mundo que cresceu foi a China e a Vale tem muita aderência ao mercado chinês”, diz.

Ele destaca que a maior parte das corretoras mantém indicação de compra dos papéis da empresa. “Ela tem mais um trigger. Porque vai começar a distribuir dividendos novamente. A indicação é boa no curto e no médio prazo”, afirma.

Setor financeiro é destaque negativo

O resultado do Banco do Brasil (BBAS3) ficou abaixo do consenso do mercado, segundo o assessor. “Tiveram que contabilizar uma operação dentro do ativo do banco, o que causou um prejuízo no resultado”, diz.

O banco teve lucro líquido de R$ 3,2 bilhões. O que significa uma queda de 23,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

O Banrisul (BRSR6) também é citado como resultado bem abaixo do esperado, porque apresentou aumento de inadimplência e aumento de provisão. Teve lucro líquido de R$ 119,88 milhões, frente aos R$ 335,4 milhões em igual período do ano anterior. A queda é de 64,2%.

O resultado da Cielo (CIEL3) também é classificado como “decepcionante”. A empresa teve no segundo trimestre seu primeiro prejuízo trimestral desde sua entrada na bolsa, em 2009.

Foi um prejuízo de R$ 75,2 milhões de abril a junho. O que reverteu lucro de R$ 428,4 milhões em igual período do ano anterior. O Ebitda caiu 69,7%, registrando R$ 236 milhões, ante R$ 778 milhões do mesmo período de 2019.

BPAC11 é exceção no setor

A exceção do setor foi BTG Pactual (BPAC11), que registrou lucro líquido contábil de R$ 977,4 milhões, com alta de 0,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior e de 27% em relação ao trimestre passado.

Na base semestral, o BTG acumula um lucro de R$ 1,75 bilhão. Isto ante um lucro de R$ 1,65 bilhão sobre o mesmo período de 2019.

Setor aéreo diretamente afetado pela crise

O impacto da pandemia foi muito forte para todas as companhias áreas. Isto porque o maior custo das empresas é o leasing das aeronaves, com preço em dólar, que disparou na crise. O segundo maior custo é o querosene de avião, que também teve alta.

“Foi um cenário em que essas empresas praticamente não tinham receita e tinham suas maiores despesas subindo”, resume Montagna. A queda nas receitas, ele calcula, foi de 80% na média. “Será um grande desafio para estas empresas recuperarem o valor de mercado, depois de um cenário tão adverso”.

Balanços da CVC atrasados

Entre as empresas de turismo, o assessor aponta que a CVC (CVCB3) foi fortemente afetada, mas que tem alguma tendência de melhora nos preços dos papéis. Isto porque o turismo local tende a ser priorizado pelos brasileiros. O que irá impactar a empresa, que é forte neste segmento. “Tudo indica que o pior já passou para estes setores”, pondera.

Entretanto, a CVC passa por um processo de auditoria em seus balanços. Por isso, está com o calendário de divulgação atrasado. O mercado ainda aguarda o resultado do primeiro trimestre de 2020.