Balança comercial de janeiro não sente impactos do coronavírus, mas é penalizada por erros estratégicos

Katherine Rivas
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Crédito: Reprodução/Facebook

A balança comercial brasileira registrou déficit de US$ 1,745 bilhão em janeiro, segundo dados divulgados pelo Ministério da Economia. O resultado foi o pior para o mês de janeiro desde 2015. Em janeiro de 2019 o saldo da balança comercial no mesmo período foi superavitário em US$ 1,697 bilhão.

De acordo com o governo federal, no mês de janeiro as exportações foram de US$ 14,430 bilhões e as importações de US$ 16,175 bilhões, o que gerou o déficit. As exportações recuaram na venda de produtos básicos (-11,9%), manufaturados (-27,7%) e semimanufaturados (-25,2%).

Já as importações recuaram na compra de combustíveis e lubrificantes (-15,3%) e de bens intermediários (-3,4%).  Porém, aumentaram para os bens de capital (+6,6%) e de consumo (+6,9%).

Para Simão David Silber, doutor em Economia pela Yale University e professor da Faculdade de Economia da USP, a queda da balança comercial não teve relação com o coronavírus, cujos impactos devem ser sentidos no comércio exterior apenas em fevereiro. No entanto, foram três fatores que provocaram o déficit: o primeiro foi o resultado de uma queda de 12 meses consecutivos nas exportações. O segundo fator seria a crise da Argentina “A crise no país vizinho provocou queda nas nossas exportações de manufaturados e semimanufaturados”, explica Silber.

Os resultados no mês de janeiro, segundo o economista, também foram influenciados pela exportação de commodities e petróleo que tiveram demanda fraca por causa da desaceleração da economia mundial, a briga comercial entre EUA e China e no cenário interno também influenciaram as questões climáticas que atrapalharam a safra de soja no mês de janeiro.

Para Carlos Stempniewski, economista e especialista em comércio exterior, o Brasil paga hoje os erros de uma política comercial errada por se associar com países “fracos comercialmente” que vivem uma crise aguda. “Os números deste mês refletem a parada geral no mundo dos negócios, especialmente nos países periféricos do comércio mundial. Representamos hoje menos de 1% do mercado global. Portanto qualquer problema em escala mundial pesa em nossa balança”, explica.

Parceiros comerciais

Segundo dados da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), os principais parceiros comerciais do Brasil em 2019 foram China, Estados Unidos, Países Baixos, Argentina e Chile. Já os dados do governo federal para o mês de janeiro de 2020, apontam que os principais compradores do Brasil este mês foram: China, Hong Kong e Macau, Estados Unidos, Argentina, Países Baixos e Cingapura.

Para Silber, até o final de 2020 os principais parceiros comerciais do Brasil devem manter a mesma hierarquia, contudo será preciso ficar de olho no petróleo e soja, que podem ser afetados por questões climáticas e atraso nos embarques. Já os manufaturados continuam sendo puxados pela crise Argentina.  Stempniewski reforça que os principais parceiros comerciais do Brasil estão na região onde o coronavírus está ativo. E que embora as economias ainda não tenham desacelerado, isso pode ocorrer. “Cadê a Europa no nosso mapa comercial? O Brasil postergou acordos comerciais importantes e na crise pagamos o preço da nossa presença modesta nestes mercados”, critica.

Projeções

O mercado financeiro espera uma queda do saldo comercial, as previsões do Banco Central para 2020 apontam superávit da balança comercial de US$ 32 bilhões. O Ministério da Economia projeta menor dinamismo no comércio internacional, contudo ainda considera a Argentina “um fator negativo”.

Silber conclui que não há muito a ser feito para manter a balança comercial brasileira estável, com múltiplas ameaças externas como a China, EUA, Brexit e a crise Argentina é preciso esperar a reação dos mercados. “Agora com o coronavírus tempos que ficar de olho no preço do petróleo”, adverte.  Carlos Stempniewski conclui que a saída está no agronegócio e no minério, fechando assim as portas do contrabando de pedras preciosas, ouro, nióbio. “É importante aproveitar que o vírus fechou o mercado asiático para promover nosso potencial natural e temperaturas tropicais. No agronegócio, a exportação de carnes podem gerar boas divisas”.