Azevedo anuncia saída da OMC, em meio a crise na entidade

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: Reprodução/Agência Brasil

O brasileiro Roberto Azevedo anunciou nesta quinta-feira (14) que irá abandonar de maneira prematura o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Azevedo tem 62 anos e comanda a OMC desde 2013. Ele foi reeleito em 2017 e ocuparia o comando da entidade até o final de 2021. Mas disse que fica somente até agosto deste ano.

Em seu discurso, afirmou que prefere se retirar da OMC, antecipando a escolha de um novo líder para a entidade.

Para ele, o novo diretor-geral deverá guiar a OMC em um cenário de grande recessão mundial decorrente da crise do coronavírus. E ainda terá que liderar um processo de transformação da entidade, a partir das propostas que devem surgir durante a realização da 12ª Conferência Ministerial da OMC (chamada de MC12), marcada para 2021.

Garantiu que não saía por problemas de saúde, nem por intenções políticas. “Minha partida em agosto lhes dará (à OMC) o tempo necessário para trabalhar com meu sucessor, seja ele quem for, para moldar a direção estratégica para a MC12 e os meses e anos que se seguem”, disse.

“O processo de seleção (do novo diretor-geral) seria uma distração. Em vez de concentrar todos os esforços, estaríamos gastando um tempo valioso em um processo politicamente carregado, que já provou ser divisivo no passado”, complementou.

E fez um balanço positivo de sua passagem pela entidade: “Meu mandato como diretor-geral da OMC tem sido o período mais exigente, emocionante e gratificante da minha vida profissional. Eu aprendi muito. E acredito que tenho sido capaz de contribuir para manter a OMC como um pilar fundamental da governança econômica global, em meio a tempos desafiadores para a cooperação multilateral”.

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Seria o fim da OMC?

Recentemente, a OMC vem sofrendo muitas críticas, especialmente do governo de Donald Trump, que é contrário ao comércio multilateral.
A função da entidade, que existe desde 1995, é ajudar em negociações de acordos comerciais e na resolução de disputas comerciais. Mas o cenário atual é de protecionismo crescente, especialmente nos EUA, e de acordos comerciais fechados à margem da OMC.

De acordo com a Bloomberg, mesmo antes do coronavírus, a organização estava se lançando na direção da irrelevância. “O reino que Azevedo preside está desmoronando”, afirmou o colunista David Fickling.

Para Fickling, a entidade se torna descartável em um cenário de luta econômica entre EUA e China e a pior recessão global desde a Grande Depressão.

Republicanos querem EUA fora da OMC

O senador republicano Josh Hawley, do Missouri, afirmou recentemente em um artigo publicado no New York Times que a OMC era uma “relíquia obsoleta” que deveria ser abolida para que os EUA estivessem liberados para combater o imperialismo chinês.

Ele também solicitou ao Congresso que vote ainda este ano a saída dos EUA da entidade. Com a saída de Azevedo anunciada hoje, Hawley foi ao Twitter pedir para ele “apagar a luz ao sair”.

 

Azevedo

 

Prováveis sucessores

Normalmente, o procedimento para selecionar o novo diretor-geral da OMC deveria começar seis meses antes de Azevedo deixar o cargo. No entanto, com o anúncio da saída de Azevedo, ele deve começar imediatamente, apesar da dificuldade das reuniões por teleconferência.

Pelo menos três candidatos já anunciaram intenção de substituir Azevedo.  O primeiro é Abdelhamid Mamdouh, advogado egípcio e ex-diretor da Divisão de Comércio e Investimentos da OMC. Depois, vem Yonov Frederick Agah, da Nigéria, vice-diretor-geral da OMC. E, por último, Eloi Laourou, embaixador do Benin na Organização das Nações Unidas (ONU).

Caso não se chegue a um acordo antes do final de agosto, um dos quatro vice-diretores-gerais assumirá como interino. Os possíveis nomes são Agah, da Nigéria; Karl Brauner, da Alemanha, Alan Wolff, dos EUA; e Yi Xiaozhun, da China. Nunca um norte-americano ou chinês ocupou o cargo.

Quem é Roberto Azevedo

Azevedo nasceu em 1957, em Salvador. Estudou engenharia na Universidade de Brasília e logo entrou para a carreira diplomática.

É representante do Brasil na OMC desde 2008 e construiu uma reputação de negociador entre os diplomatas. Sua ascensão na entidade se deu durante os governos petistas. Ele foi indicado à direção da OMC durante o governo de Dilma Rousseff.

Ele é casado com Maria Nazareth Farani Azevedo, embaixadora do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU). Ela, por sua vez, foi chefe de Gabinete do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, entre 2005 e 2008, e chegou a ser cogitada para assumir o ministério no governo de Jair Bolsonaro. É apontada como um nome que agrada a ala mais radical do bolsonarismo.

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