Atividade pesqueira pode ser um entrave nas negociações entre Reino Unido e UE

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: AFP

A União Europeia (UE) e o Reino Unido precisarão negociar o acesso às águas agora internacionais, por conta do Brexit, de domínio inglês, a partir de 2021. O acordo deverá ser discutido ainda este ano, mas analistas dizem que não será fácil.

Segundo a agência de notícias AFP, a pesca representa uma pequena parte do PIB da UE. Mas, apesar disso, “a atividade é vital para muitas frotas de França, Dinamarca, Bélgica, Holanda e Irlanda, assim como Espanha, em menor medida”.

Pierre Karleskind, eurodeputado que poderá presidir a comissão de Pesca, explicou que “há cinco vezes mais barcos europeus em águas britânicas do que barcos britânicos em águas europeias”. Esse desequilíbrio é que pode pesar em um eventual acordo.

“Cerca de 30% do valor das capturas da frota francesa se obtém de águas britânicas, uma cifra que pode montar até 50% no caso da Bélgica”, diz a agência.

Como é atualmente

Apesar do Brexit ter oficial, definitiva e finalmente acontecido na sexta-feira (31), a Política Pesqueira Comum ainda vigora até o final do ano, permitindo aos países do bloco e ao Reino Unido “administrar as populações de peixes de maneira sustentável e com igualdade de acesso às águas, algo que os britânicos têm denunciado sistematicamente”, de acordo com a AFP.

“Para garantir a renovação das populações, os países europeus negociam todo ano as cotas em virtude do Rendimento Máximo Sustentável, que depois são compartilhadas entre as frotas nacionais”, segue noticiando a AFP.

Acordo comercial

União Europeia e Reino Unido, após o Brexit, precisam efetivamente costurar acordos em diversas áreas. O problema do desbalanceamento da área pesqueira pode ser um empecilho para os demais acordos, já que é um dos poucos segmentos onde os ingleses possuem vantagem de negociação.

O bloco europeu e o governo capitaneado por Boris Johnson firmaram entendimento de que a questão da pesca deve ser resolvida até 1º de julho de 2020. Isso dá tempo suficiente para ambos os lados organizarem a partilha ideal das cotas a partir de 2021.

“Se não houver acordo em julho, tentaremos obter um acordo mais tarde, mas isso pode ter consequências sobre as decisões de cotas pesqueiras”, explica um funcionário europeu.

A AFP informa que “a UE quer ‘manter suas atividades pesqueiras’ e ‘evitar a desorganização econômica dos pescadores da União que pescam tradicionalmente nas águas do Reino Unido'”. Em outras palavras, a UE quer que os barcos de seus membros tenham autonomia suficiente para não tomarem prejuízo com a saída do Reino Unido e evitar problemas diplomáticos numa seara desnecessária.

Já o Reino Unido procura ser “um Estado costeiro independente”.

“Qualquer acordo deve refletir essa realidade”, insiste o governo britânico para a AFP. “O Reino Unido, como Noruega, Islândia e as ilhas Feroe, terá negociações anuais com a UE sobre o acesso às águas e as oportunidades de pesca”, acrescenta. Entretanto, pode haver uma subprodução, já que a frota pesqueira britânica não tem capacidade de cobrir a totalidade do volume de capturas realizadas pelos barcos europeus.

E mais: os britânicos precisam do mercado europeu para desovar seus estoques marítimos. A UE representa 70% das exportações nessa área, pela proximidade e pela necessidade. São contas que podem facilitar o entendimento.