Até onde a bolsa de valores pode chegar em 2020?

Naiana Oscar
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução / Pixabay

O mercado de ações e a economia real seguem lógicas bem diferentes. A pandemia e a crise sem precedentes que se desenrolou junto com ela só confirmam esse descasamento. É isso que temos que ter em mente quando olhamos as novas projeções para o Ibovespa em 2020. 

Depois de quase bater os 120 mil pontos em janeiro, o Ibovespa derreteu aos 63 mil pontos no dia 23 de março – queda de quase 50%. De lá para cá, o índice voltou a subir e já está novamente na casa dos 90 mil. Desse modo, nas últimas semanas, corretoras e bancos já começaram a revisar para cima suas projeções para o fim do ano. 

Por enquanto, uma das mais otimistas é a da XP Investimentos. A instituição espera que, em dezembro, a bolsa brasileira tenha praticamente zerado as perdas do ano. Com isso, chegará aos 112 mil pontos. Em março, quando a B3 afundou, a projeção era de 94 mil. 

Também no início de junho Goldman Sachs e Bank of America (Bofa) mudaram suas projeções. O Goldman revisou de 90 mil para 95 mil pontos no curto prazo. Isso ocorreu poucos dias após o próprio banco anunciar uma estimativa de 90 mil pontos em três meses. Por fim, o Bofa, que esperava o Ibovespa em 76 mil pontos em dezembro, já fala em 100 mil. 

Na semana passada, depois de uma sequência de altas, o principal índice da bolsa brasileira fechou com queda de 1,95%, aos 92.795,27 pontos. O movimento que se viu aqui foi reflexo lá de fora, com o temor de uma nova onda de contaminação pelo coronavírus.  

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Fonte: Trading View

Para entender: por que a bolsa subiu tanto desde março?

Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que os ativos brasileiros já tinham se deteriorado fortemente com a chegada da pandemia. Isso levou os estrangeiros a saírem em massa do Brasil, vendendo R$ 77 bilhões do mercado à vista da B3. 

Segundo Fernando Ferreira, estrategista chefe da XP Investimentos, qualquer melhora marginal nos fundamentos já traria um forte rebote nos preços.

Somam-se a isso um otimismo do mercado com os processos de reabertura na Europa e a injeção de dinheiro pelos governos. Já foram mais de US$ 17 trilhões anunciados em todo o mundo.  “Uma verdadeira bazooka!”, diz Ferreira. 

De acordo com Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, a precificação dos ativos financeiros que estamos vendo agora dialoga mais com a expectativa do que quer se ver no futuro. Ou seja, não está tão relacionada à situação atual.

A Ativa começou o ano projetando o Ibovespa em 135 mil, depois cortou a estimativa para 85 mil. No momento, está prestes a revisar sua projeção para 105 mil. 

Alan Gandelman, CEO da Planner, levanta outros pontos que ajudam a entender a velocidade da retomada vista nas últimas semanas. “Quando a pandemia começou houve uma corrida para zerar tudo e colocar o dinheiro em segurança”, lembra. “Todos esperavam para ver o que aconteceria e, a partir daí, tomar decisões.” 

Quando se começa a ter uma certa previsibilidade, diz Gandelman, o dinheiro que estava parado com rendimentos baixíssimos volta para a bolsa.  

Juros baixos empurram investidor para o mercado de ações

O que também ajuda a entender a procura pelo mercado de ações é o nível da taxa básica de juros no País. Atualmente, a Selic está em 3% ao ano. A expectativa do mercado é que ela caia para 2,25% na próxima reunião de Comitê de Política Monetária (Copom), no dia 17 de junho.  

Nos Estados Unidos, o Fed anunciou na semana passada que vai manter os juros em zero por três anos. Para os investidores, isso significa não ter renda financeira até 2023. Em outras palavras: para ganhar alguma coisa, vai ser preciso tomar risco. 

Por aqui, com a Selic renovando as mínimas históricas, a renda fixa também fica cada vez menos rentável. Como consequência, muita gente começou a investir na bolsa nos últimos meses, mesmo depois de o Ibovespa derreter em março. 

Em resumo, podemos afirmar que o pequeno investidor pessoa física teve um papel relevante na recuperação do mercado acionário. Enquanto os estrangeiros trocaram a bolsa brasileira por ativos mais seguros, os pequenos ganharam espaço na B3 atrás de pechinchas. 

Só no mês de março, quando as negociações chegaram a ser suspensas seis vezes (circuit breaker), 223 mil novos CPFs ingressaram na bolsa brasileira. O movimento continuou em maio, fazendo a B3 atingir os 2,5 milhões de investidores pessoas físicas. 

Selic em queda livre

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Fonte: Banco Central

A bolsa vai continuar subindo?

As novas projeções indicam que sim. O mercado continuará volátil, com situações como a que vimos na semana passada, quando o Ibovespa encerrou com queda de 1,95%. O índice começou caindo como reflexo da realização de ganhos depois sete pregões seguidos de alta. 

Depois, veio o banco central americano (Fed) com uma visão bastante pessimista da economia. Dados que apontam uma situação ainda grave com a pandemia de Covid-19 nos EUA engrossaram esse caldo. 

Mas o que dizem os relatórios de quem já revisou as projeções para cima? 

O Goldman Sachs aponta a América Latina como a região com maior espaço para uma melhoria contínua no cenário global de crescimento. Fala também em avanço das commodities

Além disso, o banco afirma que o Ibovespa oferece a “melhor oportunidade de recuperação se o sentimento de retomada do risco global persistir”.

“Se as medidas médicas nos emergentes continuarem a evitar piora do cenário, nossas análises indicam para um aumento do rendimento dos mercados de crédito, ações e cambial”, comentam os analistas do banco.

Os analistas do Bofa acreditam que os ganhos na bolsa brasileira devem ser impulsionados pela recuperação global. Mas também pela “demanda inesgotável” de minério de ferro e proteínas. Esse cenário beneficia setores de bens de consumo e commodities. 

“Sinais recentes de recuperação em todo o mundo reacenderam esse desempenho”, comentam. Os analistas citam a  surpresa positiva no relatório de emprego dos EUA e a demanda de consumo. Além de indicadores de atividade com melhora na China e mais flexibilização fiscal na Alemanha e no Japão.

Fim do ciclo de alta do dólar

Na avaliação de Ferreira, da XP, o enfraquecimento da moeda americana também pode ajudar a bolsa brasileira. Com isso, a tendência é os preços das commodities e dos ativos de países emergentes subirem. Ele menciona ainda a forte redução no risco-país do Brasil. Na prática, isso aumenta o múltiplo justo da relação entre preço e lucro para o Ibovespa

“Ou seja, usar como base os lucros de 2020 pode levar a um erro de avaliação, pois não serão lucros normalizados”, explica Ferreira. “Por isso, acreditamos que o mercado já está olhando um cenário normalizado do pós pandemia, e principalmente para 2021.”

A bolsa brasileira não está sozinha

Não é só a bolsa brasileira que parece se comportar como se não estivéssemos no meio de uma pandemia.

Atualmente, o S&P 500 voltou para a casa dos 3 mil pontos, patamar que mantinha antes de a crise estourar. 

Na semana passada, a Nasdaq superou pela primeira vez na história os 10 mil pontos. O recorde reflete a aposta nas gigantes da tecnologia como Amazon e Microsoft. Em resumo, a avaliação é de que essas empresas estão bem posicionadas para enfrentar o que vem pela frente.

mercados

Bolsas americanas recuperam máximas

“No momento, o mercado acha que teremos uma recuperação em forma de ‘V’ e uma vacina até o final do ano”, disse Bryon Wien, vice-presidente do Blackstone. “Eu acho que ambas as visões são otimistas demais”, afirmou ao The New York Times. 

Otimismo demais?

Bryon Wien acredita que os investidores podem estar excessivamente empolgados com a enxurrada de dinheiro que o governo injetou na economia. As reaberturas dos estados e os dados de emprego de maio também animam.

No mês passado, os EUA geraram 2,5 milhões de postos de trabalho. A estimativa do mercado era de destruição de 7,5 milhões de empregos no mês. 

Além disso, os analistas de Wall Street já trabalham com a perspectiva de que as empresas só voltem ao lucro no ano que vem. 

No Brasil, a avaliação segue a mesma linha. “Indicadores econômicos fracos e resultados fracos para o segundo trimestre já são esperados”, diz Pedro Galdi, analista fundamentalista da Mirae Asset. “No momento, me parece que os investidores já vêem isso como retrovisor.” 

Atenção para os riscos

Eles existem e ainda são muitos. A própria XP investimentos, no relatório em que revisa para cima a projeção para o Ibovespa, faz questão de reforçar: o país ainda não resolveu nenhuma de suas crises. 

O Brasil já registra mais de 43 mil óbitos por Covid-19. Além disso, segundo a OMS, é hoje o terceiro país com maior número de mortes. Ao mesmo tempo é também o segundo em número de casos, atrás apenas dos Estados Unidos. 

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima uma contração de 7,4% na economia brasileira em 2020. Uma segunda onda de Covid-19 no País levaria a uma queda de 9,1% do PIB. 

De acordo com a economista Zeina Latif , é preciso ter cautela. “As incertezas no cenário brasileiro são elevadas e o ambiente é propenso a acidentes. Não faltam motivos para isso, dada a difícil situação atual epidemiológica, política, social e econômica”, escreveu na semana passada. 

Ao contrário de países desenvolvidos, que podem ter um crescimento rápido, Zeina diz que o Brasil deve enfrentar uma “lenta e acidentada recuperação pela frente”.  

Consequentemente, todo mundo deve sair mais endividado da crise: famílias, empresas e o próprio governo.  “A crise fiscal é um capítulo à parte que poderá ameaçar a estabilidade macroeconômica, alicerce do crescimento sustentado, caso o Brasil não retome tempestivamente as reformas para o ajuste fiscal.” 

Recentemente, em entrevista ao Estadão, o ex-presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros disse que “a única certeza que temos agora é de que a crise é grave, o resto é dúvida”. Todas as expectativas, ele lembra, estão centradas na descoberta de uma vacina contra o coronavírus. No entanto, o remédio ainda pode demorar.