Ata do Copom: retirada de foward guidance não eleva juros automaticamente

Marcia Furlan
Jornalista com mais de 30 anos de experiência. Trabalhou na Editora Abril e Agência Estado, do Grupo Estado, como repórter e editora de Economia, Política, Negócios e Mercado de Capitais. Possui MBA em Mercado de Derivativos pela FIA.
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Crédito: Reprodução/BC

O Comitê de Política Monetária divulgou nesta terça-feira (15) a ata da última reunião do ano do colegiado, na semana passada, que manteve a taxa Selic em 2% ao ano, por decisão unânime do colegiado.

Ao analisar a conjuntura e o cenário básico, o documento diz que a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o período a partir do final deste ano, ao mesmo tempo em que diminuem os efeitos dos auxílios emergenciais.

De acordo com o Copom, os dados recentes continuam refletindo uma recuperação desigual da atividade econômica. A pouca previsibilidade associada à evolução da pandemia e ao necessário ajuste dos gastos públicos a partir de 2021 aumenta a incerteza sobre a continuidade da retomada da atividade econômica. Assim, para o colegiado, a retomada econômica seria ainda mais gradual.

Com base nesse cenário, o documento afirma que as condições para a manutenção do forward guidance seguem satisfeitas e por isso não se pretende nesse momento reduzir o grau de estímulo monetário.

As condições mencionadas são expectativas de inflação e as projeções de inflação de seu cenário básico abaixo da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária; o regime fiscal não alterado; e as expectativas de inflação de longo prazo seguem ancoradas.

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O Comitê reafirmou que alterações de política fiscal que afetem a trajetória da dívida pública ou comprometam a âncora fiscal motivariam uma reavaliação, mesmo que o teto dos gastos ainda esteja nominalmente mantido.

Contudo, o colegiado decidiu adicionar à sua comunicação que, embora haja a possibilidade de o forward guidance ser retirado em breve, isso não implicaria no aumento automático de juros.

“A manutenção desse cenário de convergência da inflação sugere que, em breve, as condições para a manutenção do forward guidance podem não mais ser satisfeitas, o que não implica mecanicamente uma elevação da taxa de juros pois a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo extraordinariamente elevado frente às incertezas quanto à evolução da atividade”, diz o documento.

No cenário de retirada do forward guidance, a condução da política monetária seguirá o receituário do regime de metas para a inflação, baseado na análise da inflação prospectiva e de seu balanço de riscos.

Segundo a pesquisa mais recente do BC ao mercado financeiro (Boletim Focus), a expectativa é de que a Selic se mantenha em 2% ao ano até o final de 2020.

Para o fim de 2021, estima-se que a taxa básica chegue a 3% ao ano.

Inflação

O Copom reconhece que as últimas leituras de inflação foram acima do esperado. E, em dezembro, apesar do recuo previsto dos alimentos, a inflação ainda deve se mostrar elevada. Mas, mesmo com a pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê avalia que os choques atuais são temporários, e diz que segue monitorando sua evolução com atenção, em particular as medidas de inflação subjacente.

Segundo o colegiado, há fatores de risco em ambas as direções. Por um lado, o nível de ociosidade pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado, notadamente quando essa ociosidade está concentrada no setor de serviços. Esse risco se intensifica caso uma reversão mais lenta dos efeitos da pandemia prolongue o ambiente de elevada incerteza e de aumento da poupança precaucional.

Por outro lado, um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco. O risco fiscal elevado segue apontando para uma inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.

Decisão unânime

A decisão do Copom, em sua última reunião de 2020, de manter a taxa básica de juros em 2,00% ao ano, foi unânime. O Comitê entende, conforme afirma na ata, que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui os anos-calendário de 2021 e 2022.

“O Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, diz o documento.

O Copom reúne-se a cada 45 dias. No primeiro dia do encontro são feitas apresentações técnicas sobre a evolução e as perspectivas das economias brasileira e mundial e o comportamento do mercado financeiro.

No segundo dia, os membros do Copom, formado pela diretoria do BC, analisam as possibilidades e definem a Selic.

O que é a Selic?

A Selic, taxa básica de juros, é usada como referência para todo empréstimo ou financiamento no país. Ela é também o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

 

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