Ant Group: maior IPO da história é cancelado em cima da hora

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / Wikipedia

“O IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações) do Ant Group, fintech do chinês Alibaba, do bilionário chinês Jack Ma, pode chegar aos US$ 35 bilhões”: assim a imprensa anunciava aquele que seria o maior IPO da história.

A marca, até ali, era da Saudi Aramco, que levantou US$ 29,4 bilhões em dezembro de 2019.

O Alibaba é considerado o maior varejista online do mundo. E a Ant, a fintech mais valiosa.

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Entretanto, algo deu errado.

A The Economist diz que Jack Ma tinha um “humor triunfante” logo depois que o Ant Group precificou seu IPO.

Falando em uma cúpula em Xangai em 24 de outubro, ele repreendeu os reguladores por estarem muito focados na prevenção de riscos financeiros. A burocracia, disse ele, apenas impedia a inovação.

Dez dias depois, suas palavras voltaram para assombrá-lo.

Menos de 48 horas antes de suas ações começarem a ser negociadas em Hong Kong e Xangai, a Ant foi forçada pelos reguladores chineses a interromper o processo.

Ruim para ambas as partes

O grupo disse em um comunicado regulatório à bolsa de Hong Kong que o IPO, agendado para quinta-feira, 5 de novembro, foi suspenso porque a empresa “pode não atender” às exigências do processo.

A conclusão da entidade reguladora veio depois de uma entrevista formal com Ma e outros executivos da empresa.

Os documentos também mencionaram “mudanças recentes no ambiente regulatório das fintechs”, sugerindo que regras recentemente publicadas podem ter atrapalhado.

A suspensão repentina também sugere que algumas autoridades poderosas podem estar descontentes com Ma.

No entanto, a virada não é apenas dolorosa para Ant.

Não pega bem também para os reguladores da China. IPOs raramente são interrompidos em um estágio tão avançado. O negócio foi subscrito em mais de 800 vezes em Xangai, e em Hong Kong, na semana passada, a empresa tinha tudo preparado um dia antes.

Foi criado para ser negociado em Xangai, a resposta da China ao índice Nasdaq, projetado para atrair grupos de tecnologia chineses que estão listados no exterior.

Em vez disso, a suspensão de última hora da listagem do Ant destaca a opacidade do sistema político chinês e os riscos que podem atrapalhar até mesmo suas empresas mais bem-sucedidas.

Ant inovou

Também é o mais perturbador dos desentendimentos da Ant com os reguladores.

A empresa ajustou consistentemente seus negócios à medida que as regras em torno dela mudavam.

Ou seja, fez o que dela se esperava.

O desastre do IPO cancelado parece estar parcialmente relacionado a um desses casos.

Em 2018, os funcionários colocaram limites na securitização lastreada em ativos, revertendo o modelo da Ant de vender seus empréstimos aos bancos.

Por isso, foi pioneira em uma nova abordagem: consumidores e comerciantes pegavam emprestado por meio do Alipay, seu serviço de pagamentos, em seus smartphones, mas o dinheiro vinha de bancos. Ant era simplesmente o canal, coletando uma “taxa de serviço de tecnologia”.

Este negócio de conduítes prosperou, com o crédito crescendo para superar os pagamentos como a maior fonte de receita do Ant.

Ant quase foi esmagada

Em 2 de novembro, o Banco Popular da China, que é o banco central do país, e o regulador bancário publicaram novas minutas de regras para microcrédito online, que pareciam quase perfeitamente adaptadas para minar a Ant.

Os credores online precisarão financiar pelo menos 30% de qualquer empréstimo que fornecerem em conjunto com os bancos.

Isso poderia forçar a Ant a manter muito mais do crédito originado em seus livros.

Atualmente, 98% são mantidos como ativos por outras empresas, fora do balanço da Ant.

Requisitos de divulgação adicionais também podem tornar muito mais difícil para os bancos fazerem parceria com o grupo.

Funcionários do regulador bancário da China já pressionaram os credores comerciais a aderir às novas regras, na verdade tornando muitas das transações do Ant “fora do padrão”.

Era como o gigante estado chinês tivesse tentado esmagar uma formiguinha.

Em cima da hora

Anteriormente, os investidores haviam dado à Ant um múltiplo futuro de preço por lucro de 40, em linha com as grandes empresas de pagamentos globais.

A maioria dos bancos chineses, ao contrário, negocia em múltiplos de menos de dez.

A Ant estava a caminho de uma capitalização de mercado de US$ 300 bilhões, maior do que qualquer banco do mundo.

Agora é provável que fique aquém disso. As ações da Alibaba caíram 8% após o anúncio da suspensão do IPO.

Alguns investidores podem pelo menos ser gratos aos reguladores por introduzirem as novas regras antes do IPO, por mais tarde que pareça dentro do processo, permitindo-lhes fazer uma nova precificação da Ant antes de comprar suas ações.

É de se imaginar o estrago que aconteceria se a regulação viesse depois da ações em bolsa.

Ademais, não é que o IPO fosse uma surpresa ou a empresa fosse uma entidade desconhecida.

Os reguladores poderiam ter agido muito antes. Essa é a questão.

A possibilidade de que tenham sido motivados por um rancor contra o Ma, e talvez irritados com seu discurso recente, não pode ser descartada.

Uma “techfin”

Dependendo de como as regras são implementadas – elas não serão finalizadas até dezembro – o modelo de capital da Ant pode acabar parecendo muito menos elegante.

“Será avaliada mais como uma empresa financeira do que de tecnologia”, disse um estrategista de um fundo soberano asiático.

E isso muda tudo.

Dado o histórico da Ant, parece uma aposta justa que ela se adaptará rapidamente às novas regras.

Contudo, suas operações de crédito provavelmente enfrentarão um crescimento muito mais lento e com menor lucratividade.

Ant havia feito um grande esforço para se identificar como uma empresa de tecnologia, não um banco.

Ele descreve seu negócio como “techfin” – isto é, colocando a tecnologia em primeiro lugar – não fintech.

Antes da listagem, pediu às corretoras que designassem analistas de tecnologia, não apenas bancários, para fazer a cobertura.

Em última análise, porém, seu foco sempre foi no setor financeiro da China.

Essa é a indústria pronta para a ruptura e onde está o dinheiro.

Mas, como a Ant e legiões de investidores foram lembrados, é aí também que os reguladores se escondem.

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