Ânima (ANIM3) vence SER (SEER3) em disputa por Laureate

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação Ânima

Uma reviravolta ocorreu na venda das operações da Laureate no Brasil. Enquanto o mercado apostava na aquisição pela Ser Educacional (SEER3) ou, talvez, pela Yduqs (YDUQ3), eis que Ânima (ANIM3) saiu na frente.

A Laureate emitiu comunicado nesta quarta-feira (21), informando que a venda foi acertada por R$ 4,4 bilhões. As ações da Ser caem, às 13h30, 3,83%.

A Ânima abocanha, desta forma, 11 instituições de ensino, 50 campi e 267 mil alunos. A empresa ficará responsável por pagar a multa rescisória à Ser, calculada em R$ 180 milhões.

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“A Laureate pretende rescindir seu contrato de transação com a Ser o mais rápido possível e entrar em um contrato vinculativo definitivo com a Ânima”, informou a empresa americana.

No entanto, a Ser, que já tinha feito uma proposta anterior, promete contestar o desfecho da história na Justiça, alegando que a Ânima não apresentou as fontes para pagar a compra.

Afirma a empresa: “Houve divergência entre as partes em relação ao válido exercício do direito de go shop e, em razão dessa divergência, o assunto será discutido judicialmente. Nesse  sentido, a Ser entrou com pedido de tutela cautelar, em  caráter antecedente a procedimento arbitral e obteve decisão liminar favorável, mantendo o Transaction Agreement, válido e eficaz”.

O lance da Ser Educacional era estimado R$ 4 bilhões e continha a cláusula de “go shop”. Na prática, isso significava que a Laureate ficava aberta a receber outras propostas, mas que estas poderiam ser cobertas.

Ao invés de contra proposta, Ser apresenta liminar

Segundo a Laureate, no dia 12 de outubro, a empresa recebeu a proposta da Ânima e a levou à Ser, que poderia fazer contra proposta em um período de até cinco dias.

Em 20 de outubro de 2020, porém, ao invés de apresentar um valor concorrente, a Ser informou a Laureate que havia obtido uma liminar com relação à rescisão do contrato.

“A apresentação de uma proposta superior já era esperada. Talvez o que surpreenda seja o valor oferecido pela Ânima, que no total atinge algo em torno de 900 milhões. São 500 milhões a mais no valor do negócio, 200 milhões como bônus pelo cumprimento de metas estabelecidas e 180 milhões do pagamento da multa a Ser”, afirma Carlos Monteiro, consultor de gestão estratégica para instituições de ensino superior.

Para ele, é natural a Ser recorrer judicialmente da decisão. “A Ser vai para a guerra. Imagine, perder um negócio considerado fechado!”, diz.

Ele explica que a Ser, ao mesmo tempo em que tenta barrar o prosseguimento do negócio entre Laureate e Ânima, ganha mais tempo para apresentar uma nova proposta. “Será interessante analisar como será a postura da Laureate. Ela tem duas boas propostas, tem interesse em vender, mas a negociação não pode virar um grande leilão. Às vezes, querendo ganhar mais, pode acabar ficando com um mico nas mãos”, avalia.

Ânima mantém proposta pela Laureate, após Ser recorrer

A Ânima se pronunciou, em fato relevante, após a Ser Educacional recorrer à Justiça.

Em fato relevante, a Ânima diz que “sua proposta apresentada para aquisição dos ativos brasileiros da Laureate foi escolhida por ser superior na fase de “go-shop” do processo estruturado”.

A empresa afirma ter tomado conhecimento de que a Ser Educacional “moveu medida cautelar para tentar impedir a continuidade do processo estruturado”.

E completa: “[a Ser] obteve liminar apenas para que, provisoriamente, o contrato firmado não seja rescindido, mantendo-se por ora sua eficácia até apreciação definitiva”.

Isso ocorrerá após a manifestação da Laureate.

“Nesse sentido, a Ânima Educação esclarece que “mantém sua proposta tal como apresentada e divulgado, aguardando o desfecho da situação noticiada”, conclui.

Por que a Laureate quer deixar o país?

A Laureate é uma empresa norte-americana presente em diversos continentes. Recentemente, ela deu início a um processo de desinvestimento, a fim de pagar dívidas e se reestruturar.

A empresa já deixou o Chile e iniciou vendas no Peru, no México, na Austrália e na Nova Zelândia. Esta semana, vendeu a Inti Education, da Malásia, para a Hope Education Group, de Hong Kong, por US$ 140 milhões.

Desfazer-se das instituições no Brasil faz parte deste plano global.

“Há tempos atrás, a Laureate realizou um enorme esforço de expansão pelo mundo. Ela voava em céu de brigadeiro e realizou diversas aquisições. No Brasil, começou com a compra da Anhembi Morumbi”, lembra Monteiro.

Depois, ele afirma, a Laureate foi adquirindo a Universidade Potiguar em Natal, a Unifacs, na Bahia, a Uninorte, em Manaus, a Universidade Ritter dos Reis, em Porto Alegre, e a UniFMU, de São Paulo. “Após toda essa euforia compradora, a Laureate resolveu se desfazer dos ativos”, ele diz.

Para ele, as jogadas estratégicas da companhia foram apostas mal feitas, tanto do ponto de vista da gestão quanto acadêmico.

“O modelo acadêmico não seguiu o modelo de rede. Cada instituição adquirida seguia seu próprio modelo. Portanto, os ganhos de escala eram ínfimos ou inexistentes”, explica.

No segundo trimestre deste ano, a Laureate global relatou um prejuízo de US$ 307,8 milhões.

De acordo com cálculos da Ser, a receita líquida da Laureate no Brasil foi de R$ 2,2 bilhões nos 12 meses findos em 31 de março de 2020. E o Ebitda (lucro antes de juros) foi de R$ 413 milhões.

A dívida líquida, excluindo endividamento com a matriz, é de R$ 623,3 milhões. O cálculo foi feito com base na contabilidade da Ser e com informações gerenciais não auditadas.

Ânima não deve ter dificuldade junto ao Cade

Ainda é preciso aguardar o desfecho jurídico da história, mas a Ânima não deve ter problemas junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para fechar a compra da Laureate.

Segundo a consultoria Hoper, entre as três maiores empresas interessadas (Ser, Yduqs e Ânima), apenas a Yduqs poderia enfrentar problemas de concentração de mercado. A concentração aconteceria no Rio de Janeiro, onde a Yduqs já detém 33,4% do mercado.