América Latina teve tempo para se preparar para a pandemia e deve colocar os ensinamentos em prática

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: NIAID-RML / AP

A América Latina foi uma das últimas regiões a ser atingida pela pandemia do novo coronavírus, o Covid-19. Isso pode ser uma vantagem para enfrentar a crise, afinal houve tempo para se preparar, se precaver e antever medidas, baseado no que foi feito em locais como China, Coreia do Sul e Europa.

Entretanto, é preciso analisar se as medidas estão sendo tomadas para que os países não cheguem ao caos enfrentado pela Itália, França, Espanha e, provavelmente, a Inglaterra.

“Chegar a uma situação como a da Itália ou da Espanha seria algo muito dramático e catastrófico, e não podemos descartar que pode acontecer”, diz Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis e Determinantes Ambientais da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) à BBC News Mundo.

“Os sistemas de saúde devem se preparar para o pior cenário”, acrescenta.

Deve-se levar em conta que são países muitas vezes pobres, outros emergentes, com grande desigualdade social e com infraestrutura em saúde bem precária, se comparada com os países europeus e alguns asiáticos.

Vantagens da América Latina

Segundo matéria da BBC, a América Latina leva vantagem justamente por ter sido atingida pela pandemia no fim da fila. Ou seja, pôde olhar com antecipação o que os outros países e continente vinham fazendo para impedir que o vírus se alastrasse ainda mais.

Países como Argentina e Venezuela realmente se anteciparam e não esperam o coronavírus se espalhar para implantar medidas radicais de isolamento social e quarentena. São decisões como essas que fazem os dois países terem conseguido frear o ritmo assustador de disseminação em países vizinhos, como o Brasil.

Os números ainda crescem, mas numa velocidade menor.

Outra vantagem é saber lidar com epidemias, que são constantes em países tropicais e equatoriais.

A região “tem uma vasta experiência no gerenciamento de surtos e pandemias, como o H1N1 em 2009 e a zika há 4, 5 anos”, lembra Espinal. “A América Latina aprendeu com essas lições e os países estão um pouco mais bem preparados do que antes dessas epidemias”.

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Há ainda a dengue e a chicungunha, além de malária, febre amarela e sarampo.

“É uma região resiliente que enfrentou o zika com muito sucesso”, disse Espinal.

Segundo disse Espinal à BBC, “as doenças emergentes ou reemergentes estão lá e fazem parte de nossa vida cotidiana”. Mas ele alerta que a epidemia do Covid-19 é muito mais séria e com consequências ainda imprevisíveis.

Pior que na Itália

A BBC ouviu Miguel Lago, diretor do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde (IEPS), com sede no Rio de Janeiro, e ele acredita que o quadro italiano possa se repetir na América Latina.

“É muito possível que aconteça na América Latina o que aconteceu na Itália ou talvez pior, porque a Itália investe quase 7% do PIB em saúde pública e possui um sistema mais forte que os de nossos países”, diz o especialista.

Ele lembra também que o México só investe 3% do PIB em saúde pública e o Brasil, só 4%.

“Isso nos afetará (o coronavírus). O importante é minimizar a possibilidade de surtos maciços e implementar medidas que nos ajudem a controlar o máximo possível a possibilidade de ocorrer o que está ocorrendo nos Estados Unidos, Itália, China ou Irã”, diz Espinal, da OPAS.

Sem vacina e sem um remédio que cure efetivamente o Covid-19, o isolamento social e a quarentena são as únicas armas que os países ensinaram para quem passou a enfrentar a pandemia por último.

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