Alta da Selic e juros futuros: entenda a relação entre as taxas

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
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Crédito: Reprodução/iStock Photos

Em meados de março, a taxa Selic voltou a subir depois de quase seis anos em queda. Isso mexe com os juros de curto prazo do mercado financeiro, tanto nos investimentos quanto nos empréstimos e financiamentos.

Mas será que a alta da Selic afeta também os juros de longo prazo? Afinal, com a taxa básica de juros subindo, continuará valendo a pena investir em ações, Fundos Imobiliários e outras modalidades de renda variável?

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Para respondermos a essas perguntas, conversamos com Valter Manfro, professor de finanças pessoais e assessor de investimentos da EQI. A seguir, veja o que o especialista disse sobre os impactos da alta da Selic nos juros de longo prazo.

Relação da taxa Selic com os juros futuros

Quando falamos em taxas de juros, é preciso fazer uma distinção entre taxa Selic e juros de longo prazo. Nesse sentido, Valter explica de forma bastante didática que “Selic é a taxa de juros presente, ou seja, são os juros do aqui e agora. Já os juros futuros, como o próprio nome indica, são as projeções do custo do dinheiro para o futuro. Essas projeções devem considerar todos os eventos que acontecerão pelo caminho nos próximos anos e, quanto mais distante estiver esse futuro, maior será a diferença entre a Selic e os juros futuros.”

Em outras palavras, quanto mais longo for o prazo a ser considerado, menos previsibilidade teremos em relação ao cenário econômico. Dessa forma, mais decolados ficarão a Selic e os juros futuros.

Exemplos de juros futuros

No final de março, tínhamos as seguintes projeções para juros futuros:

  • janeiro/2023: 6,35%
  • janeiro/2025: 7,99%
  • janeiro/2027: 8,62%
  • janeiro/2029: 8,67%

Perceba que, quanto mais nos distanciamos do momento atual, mais descolados ficam a Selic e os juros de longo prazo. Por isso, normalmente os juros futuros mais longos são mais altos do que os mais curtos.

Fatores que influenciam os juros futuros

Existem vários fatores que influenciam os juros futuros. Alguns deles são:

  • dívida pública do país;
  • taxas e projeções de inflação;
  • taxas de desemprego;
  • paridade real x dólar;
  • entre outros.

Em relação ao Brasil, a expectativa do mercado é de que a Selic, hoje em 2,75% ao ano, atinja patamares próximos a 5% ao ano até o final de 2021. Para Valter, é possível que a Selic suba mais do que 5% esse ano. Um dos motivos que ele destaca é a elevada dívida pública, que consome grande parte do que o país consegue arrecadar. Uma vez que o Brasil não tem muito poder de manobra em relação à arrecadação, o risco fiscal local é alto. Nessa situação, a taxa básica de juros não pode ser a mesma de países com risco fiscal mais baixo.

Quanto maior for o risco de um ativo, maior também será a remuneração exigida pelo investidor. Na opinião de Valter, mesmo com a recente alta, a Selic ainda não representa o alto risco do mercado brasileiro. Prova disso, segundo o assessor, é a taxa de câmbio desvalorizada que temos hoje. “Com uma taxa de juros tão baixa e que não reflete nossa realidade em termos de risco, o investidor resiste em trazer dólares para cá. Dessa forma, há grandes chances de novas altas da Selic se o dólar continuar a subir. Só assim conseguiremos atrair mais recursos externos para o país nesse momento”, conclui o assessor.

Os juros de longo prazo são dados pelo mercado

Os juros futuros são dados pelo mercado, que tenta antecipar os movimentos da economia. Ou seja, o cenário presente e as perspectivas para a economia já estão “precificados” pelos juros de longo prazo.

No entanto, é importante entender que esses juros não são estáticos. Ou seja, o juro em janeiro de 2029 não será, necessariamente, 8,97% como vimos anteriormente. Essa projeção foi feita considerando que as variáveis que temos hoje para avaliarmos o cenário futuro não se modifiquem.

Caso ocorram fatos que piorem essas perspectivas, o juro futuro subirá mais. Por outro lado, se fatores como economia e contas públicas começarem a dar sinais de melhora, isso será refletido pela queda dos juros de longo prazo.

Valter reforça que “Selic e juros futuros dependem da nossa caminhada. Quanto mais cristalina for, mais ambos se aproximarão. Já se tivermos muita nebulosidade no caminho, mais incerto será nosso futuro e maior será a diferença entre eles”.

No caso do Brasil, a volatilidade é um fator sempre presente na taxa de juros futura. Isso por causa da instabilidade econômica, risco fiscal e outros fatores que causam oscilações nos preços dos ativos financeiros.

E a alta da Selic pode influenciar a bolsa de valores?

Antes de mais nada, é importante saber que, além da alta dos juros, há vários outros fatores que influenciam na bolsa de valores. Porém, como estamos falando de Selic, consideraremos só essa variável para responder à pergunta.

Segundo Valter, não há uma resposta única para isso, pois é preciso avaliar caso a caso. Por exemplo, setores como bancos e outros ligados ao mercado financeiro se beneficiam com o aumento da Selic, por causa da alta do spread bancário.

Por outro lado, empresas dos setores de varejo, elétrica e locação de veículos, por exemplo, podem ser prejudicadas com a alta dos juros se estiverem endividadas. Isso porque o aumento do custo financeiro fará com que percam rentabilidade, e isso poderá se refletir em suas ações.

Juro real x inflação

O principal motivo do aumento de novos investidores na bolsa nos últimos anos foi a sucessiva queda de juros no Brasil. No entanto, para a rentabilidade dos investimentos, é muito importante considerarmos o juro real, ou seja, a diferença entre a taxa básica e a inflação.

Para Valter, se temos uma inflação alta e juros reais baixos, ainda assim as pessoas continuarão a investir na bolsa de valores. Isso porque, nessa situação, os investimentos de maior risco são os que proporcionarão mais rentabilidade. A migração dos investimentos para a renda fixa só valeria a pena se os juros reais fossem mais altos do que a inflação.

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