Rosto feminino da EQI Asset, Aline Cardoso analisa o que acontece com as bolsas

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/EQI Asset

Os treasuries vêm roubando o noticiário econômico nas últimas semanas e mexendo com as bolsas do mundo todo.

Os papéis que representam títulos da dívida pública dos Estados Unidos subiram de maneira acelerada. E ligaram um alerta no mercado.

Isto porque os treasuries representam a opção mais segura de ativo do mundo – na prática, é você emprestando dinheiro para o governo dos EUA, que por sinal é um ótimo pagador.

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Logo, se os treasuries têm bons rendimentos, eles tendem a derrubar as bolsas, com uma migração natural da renda variável para a renda fixa.

Outro ponto é que, com a sinalização de alta no rendimento dos treasuries, tem-se a desconfiança de que os juros básicos podem subir mais rápido do que o esperado nos EUA. Hipótese que, se confirmada, tornaria mais caros os empréstimos dos bancos às empresas. E especialmente as empresas de tecnologia são muito dependentes dos empréstimos bancários. Exatamente por isso, os papéis da Nasdaq são os que mais caem, comparativamente com as demais bolsas.

Também prejudica a Nasdaq o fato de que há um movimento natural de rotação de ações. Se o ano de 2020 foi das ações de tecnologia, mais resilientes na crise, este é o ano de olhar para as empresas que tiveram demanda reprimida por conta das medidas de distanciamento social necessárias à pandemia. Com a retomada econômica, tais empresas devem ter crescimento destacado, dada a base de comparação pequena do ano anterior.

Mas para entender tal cenário, é preciso levar em conta três fatores macro relevantes.

Primeiro: o mundo, e especialmente os Estados Unidos, vive agora um período de retomada das atividades econômicas.

Segundo: a vacinação já está em curso – é certo que em alguns países mais do que nos outros, mas os EUA já vacinaram 25% de sua população.

Por fim: o mundo nunca viu tanta liquidez no mercado, decorrente dos pacotes de estímulos fiscais e monetários dos governos. Nos EUA, está em curso no Congresso a aprovação de um novo pacote de US$ 1,9 trilhão a ser injetado na economia.

Para falar sobre o tema e amarrar todas estas informações, conversamos com Aline Cardoso, gestora e analista de renda variável da EQI Asset.

Engenheira industrial de formação, Aline traz no currículo passagens por Trafalgar, Bradesco, HSBC, Santander, Brascan e Opportunity. Agora na EQI, ela se junta a uma equipe de experientes e renomados gestores para oferecer aos clientes da casa fundos de investimento e também produtos de previdência. Confira o bate-papo.

Os treasuries vêm, atualmente, mexendo com as bolsas do mundo todo. Afinal, por que isso acontece?

Aline Cardoso – A taxa paga por esses papéis teve uma abertura de 60 pontos percentuais. Estava em torno de 1% no começo do ano, agora está em torno de 1,55%. Isso não parece muito, mas para treasury é muita coisa.

Mas, primeiro, é importante entender que é natural que, com a abertura da economia e a vacinação, você tenha essa abertura das taxas. A recuperação econômica faz as taxas que estavam muito baixas subirem mesmo, é normal.

Só que tem outra coisa por trás disso. Na crise do Covid, tivemos dez vezes mais incentivos do que na crise de 2008, por exemplo. Então, o mercado tem a preocupação de que, com muito estímulo fiscal e monetário e a retomada, apareça a inflação.

Com reabertura, todos os estímulos, uma ruptura que houve na cadeia de suprimentos com as fábricas fechadas, e a valorização as commodities – basta ver o petróleo que subiu 37% no ano-, o mercado fica com essa preocupação.

Payroll e vendas no varejo nos EUA vieram fortes e confirmam que a retomada está acontecendo. A gente nunca teve nada parecido na história. Então fica a dúvida: o que vai acontecer agora?

Mas retomada não é boa para as empresas e, consequentemente para as ações?

Aline Cardoso – Com certeza é. Mas o mercado está entrando em uma dinâmica que é a seguinte: as taxas abriram muito rápido, em uma velocidade incomum. Antes do Covid, elas estava em torno de 2%, até 3%. O nível não preocupa, na verdade. Mas a velocidade com que elas subiram coloca uma pulga atrás da orelha do mercado. Será que isso vai afetar a recuperação econômica? Será que antes de terminar essa recuperação, a gente vai entrar em uma recessão? Esta é a grande dúvida agora.

No mercado de ações já é perceptível uma migração da renda variável para a renda fixa?

Aline Cardoso – O que vemos hoje ainda é uma rotação dentro da bolsa. O ano passado foi um período em que a tecnologia performou muito bem. Todas as empresas do “fique em casa” se favoreceram, como o e-commerce e tecnologia em geral. Ficaram para trás as empresas que fecharam as portas e as dos setores cíclicos. Agora, os investidores estão indo para essas.

As bolsas americanas ainda têm resultado positivo no ano, com exceção da Nasdaq que já cai 2%, mostrando que a migração está acontecendo. O fato é que a abertura das taxas dos treasuries está tão rápida que está gerando aversão a risco. O mercado está esquizofrênico. Tem medo de inflação, medo das taxas abrirem demais, incertezas demais.

Transferindo para a realidade brasileira, isso deve acontecer por aqui também?

Aline Cardoso – Aqui o medo da inflação já é real. E o próprio presidente do Banco Central (Roberto Campos Neto) já mudou o discurso. O mercado já trabalha na expectativa de alta da Selic agora em março. A inflação começou em alimentos, mas está se espalhando para a economia toda. O que difere do discurso do Jerome Powell (presidente do Federal Reserve), que ainda se mantém tranquilo com a inflação.

A valorização dos papéis do governo em detrimento da bolsa também vem para cá, então?

Aline Cardoso – Aqui as taxas abriram mais ainda, por juntar as questões externas com nossos problemas internos. Por um lado é bom, porque mostra a recuperação da economia, quando é natural os juros subirem. Mas por outro, isso desperta uma preocupação com a inflação. E nós temos algo bastante nosso, que é o risco Brasil, que também pesa.

Aline, você é o rosto feminino da EQI Asset e dia 8 de março, segunda-feira, é o Dia da Mulher. Na sua opinião, existe mesmo um olhar feminino diferente para o mercado?

Aline Cardoso – Eu acho que a diversidade em geral, homem e mulher, raças diferentes, orientações sexuais diferentes, é sempre muito positivo, para qualquer tipo de negócio, para qualquer companhia. Porque você traz vivências diferentes, perspectivas diferentes. Quanto mais diverso um time, sempre melhor. Em geral, as mulheres são mais conservadoras em termos de tomada de risco. O homem, geralmente, é mais agressivo.

Mas lembro de um estudo muito interessante que comparou a performance de diversos fundos de investimento, em uma janela bem longa de tempo, uns dez anos. A conclusão é que os melhores fundos não são nem os 100% geridos por homens, nem os 100% geridos por mulheres. Mas sim os fundos mistos, porque um sempre consegue equilibrar o outro.