Aéreas buscam eficiência enquanto aguardam pacote do governo

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Tudo de Viagem

Flexibilidade e eficiência é o binômio que deve dominar a estratégia das companhias aéreas nos próximos meses e anos.

Isso enquanto as companhias mantém na expectativa do anúncio, por parte do governo federal, de um pacote de socorro ao setor, a princípio, de R$ 10 bilhões, mas que foi ‘desidratado’ para R$ 3 bilhões.

Para os dirigentes de companhias aéreas, enquanto a flexibilidade está associada a mudanças introduzidas pelas empresas na crise, visando atrair de novo uma, até então, reticente clientela em potencial, a eficiência condiciona-se a medidas de incentivos a serem oferecidas pelo governo federal, a exemplo de novas linhas de crédito e menor carga tributária sobre a atividade.

Tsunami iminente

Segundo o diretor da Agência Nacional de Aviação (Anac), Juliano Norman, diferentemente “dos outros setores, que contaram com três semanas para reagir à crise, o setor aéreo só dispôs de algumas horas para enfrentá-la”.

Medidas flexíveis

Ao ressaltar a importância de o setor contribuir para a saída da crise, Norman apontou algumas iniciativas da autarquia. “Adotamos medidas regulatórias flexíveis para permitir que as empresas se ajustassem à crise, como a  concessão de “waver” (espécie de perdão) para licenças, treinamentos para capacitação, e prorrogação de prazos para pagamento de compromissos e obrigações”, afirmou.

“Como as reservas das companhias caíram muito, isso prejudicou, inclusive, o seu fluxo de caixa de curtíssimo prazo”, interpreta, ao acrescentar a edição da medida provisória que ampliou o prazo para pagamento de outorga.

Segundo ele, a Anac priorizou três medidas de combate à crise.

A primeira, proteger o fluxo de caixa das empresas que atuam no Brasil, que são muito eficientes.

A segunda, preparar o setor de aviação para ajudar o país, a exemplo dos voos que traziam material e equipamentos importados da China .

E, por último, a preservação da infraestrutura aeroportuária e do próprio transporte aéreo.

Serviços essenciais

Roman comenta que a autarquia entrou em contato com a administração dos aeroportos, para assegurar, ao menos, a continuidade dos serviços essenciais e que os voos fosse mantidos, mesmo que para finalidades emergenciais médicas.

Preocupação similar houve para garantir o funcionamento da chamada ‘malha essencial’ ou corredor de voos abrangendo todas as capitais brasileiras. “Dessa forma, garantimos o fluxo mínimo de aeronaves no país”, comenta.

Roman acrescenta, ainda, a adoção de outras medidas, como transporte de carga na área das cabines e de material perigoso, e o deslocamento de bombeiros e agentes ambientais envolvidos com o combate à pandemia.

A constituição de grupos de trabalho (GT) para debelar a crise é outra inovação da Anac.

“O primeiro se dedicou a assimilar informações e procedimentos relacionados aos protocolos sanitários, ao passo que o outro se concentrou em medidas regulatórias.

Preocupação prioritária

Ao destacar a preocupação prioritária da companhia com a segurança de seus passageiros, o CEO da Latam, Jerome Cadler admite que persiste a incerteza quanto ao tempo de retomada plena dos voos.

“Ninguém sabe, ao certo, o que vai acontecer, se a normalidade voltará em um mês ou daqui  ou dentro de quatro, cinco anos”.

Espaço maior

Entre as medidas desenvolvidas para combater a pandemia, o CEO explica que a companhia estabeleceu orientações, no sentido de ampliar o espaço entre os passageiros, alterou processo de embarque, incentivando a interação digital para a aquisição e confirmação das passagens.

Máscara obrigatória

Além disso, os procedimentos adotados pela Latam incluíram a exigência de que todos os passageiros, sem exceção, portassem máscaras. “Também colocamos à disposição álcool gel”.

A retomada vai depender, em síntese, na opinião de Cadler, “de um melhor conhecimento desse vírus, ao longo do tempo, e para que busquemos sempre elevar o nível de segurança das companhias”.

Flexibilidade já!

“Nossa indústria precisa de flexibilidade para negociar com fornecedores e sindicatos, para viabilizar a recuperação do setor, que deverá demorar ainda, pelo menos, uns dois anos”, pontua John Rodgerson CEO Azul (AZUL4), para quem esse “tempo é suficiente para que, tanto companhias quanto passageiros se sintam mais seguros”.

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Rodgerson entende que é hora de o governo socorrer o setor aéreo com linhas de crédito e outros instrumentos fiscais. “Pode abrir esses créditos porque o setor vai corresponder e pagar tudo com juros e correção monetária”, adiantou.

Segundo ele, os recursos públicos poderão atender todas as empresas, de modo geral, porque hoje não há concorrência no setor. “Temos que fazer tudo para uma retomada segura”.

Dinâmica ‘subvertida’

Já o CEO da Gol (GOLL4), Paulo Kakinoff, destacou que a dinâmica da economia mudou e foi ‘subvertida’ para operações elementares , de como manter caixa no período agudo da crise.

Declínio da curva

Sua expectativa é de que, “acompanhando o declínio da curva de contágio, haja uma mobilização maior de pessoas, até que descubra uma solução definitiva para o problema”.

“Até lá, vamos ter muitas mudanças”, completa. Entre as de impacto imediato, ele admite que as passagens vão ficar mais caras. “A aviação ficou mais cara e permanecerá assim por algum tempo”, avalia.

Vendas digitais disparam

Segundo Kakinoff, as medidas de segurança influenciaram muito na mudança de perfil do usuário, pois a opção de compra de passagens sem interação social saltou de 70% para 90% no período mais agudo da pandemia.

Como os custos da atividade, normalmente elevados, avançaram ainda mais, o CEO da Gol  disse acreditar que o mercado, de modo geral, será levado a buscar modelos de baixo custo, para atrair novamente a clientela.

Elevação de produtividade

“A palavra de ordem para o segundo semestre será a elevação da produtividade. De qualquer modo, trata-se de um momento muito desafiador à nossa indústria”, pontua.

Perspectiva 2020

Já o CEO da Latam, Jerome Cadler, distinguiu a velocidade de retomada entre as linhas aéreas. Enquanto as domésticas deverão reagir mais rapidamente, as internacionais serão, certamente mais lentas, à medida que o temor em relação à pandemia nos destinos externos se reduzir.

Cadler concorda com seu colega da Gol, Kakinoff, quanto à tendência mais imediata do setor, de oferecer ao público em potencial passagens de baixo custo.

Rigidez normativa

Ao mesmo, o comandante da Latam entende que a crise evidenciou a rigidez normativa do setor aéreo, o considera um obstáculo na busca de flexibilidade pelas companhias.

“Vamos convidar nossos passageiros a voar novamente, mas, pra isso, será necessário, num primeiro momento, suportar um aumento de valores do voos, depois reduzidos por meio de ganhos de eficiência obtidos pela companhia”, confia Cadler.

Para ele, a redução de custos é o ponto de virada para a decolagem do setor, que se ressente há anos, da perda de eficiência.

Coro reforçado

Fazendo coro às afirmações do CEO da Latam, John Rodgerson lembra que o país impõe à atividade “impostos e combustíveis muito caros”. Como exemplo, citou que a “Colômbia e o Chile possuem mais passageiros que o Brasil atualmente”.

Desempenho rasante

Para reverter o desempenho ‘rasante’ das companhias nacionais quanto à taxa de ocupação dos voos, Rodgerson revela entendimentos com os ministros Paulo Guedes e Tarcísio Gomes de Freitas, da Economia e Infraestrutura, respectivamente, no sentido de ‘atacar custos’, ou seja, cortar impostos que reduzem a eficiência e competitividade do setor.

Capital estrangeiro

“Mas também precisamos atrair o capital estrangeiro, até porque hoje é muito caro investir no Brasil, embora o setor responda por milhares de empregos e pela geração de renda no país”, arremata.