Crise atual é pior, tratamos de vidas, diz Teixeira da Macro Capital, ex-Credit

Osni Alves
Jornalista | osni.alves@euqueroinvestir.com
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Crédito: A crise atual é pior que 2008, pois estamos tratando de vidas, diz Nilson Teixeira

“A crise atual é muito pior que 2008. Estamos tratando de vidas”, diz o sócio fundador da Macro Capital One, Nilson Teixeira.

Isso porque a crise de 2008 se deu no âmbito dos bancos, enquanto a atual é uma pandemia que está ceifando vidas.

Conforme o economista, esse fenômeno tem deixado o mercado mundial ainda mais volátil e repleto de incertezas. “São 1,3 milhão de infectados no mundo, com 71 mil mortes”, disse.

E acrescentou: “há temor que haja uma grande contaminação nas cadeias de produção. Se afetar a cadeia, afeta o crescimento.”

“As dúvidas são muitas, a começar por quanto tempo dura esse processo [de lockdown] e qual o número de leitos necessários para atender a demanda”, frisou.

Apesar do quadro nebuloso, ele trouxe um pouco de alento: “pode ser que já estejamos vivendo o pior momento dessa crise ou próximo a ele”, disse, em referência a uma possível guinada logo no início do segundo semestre.

Mas, fez uma ressalva: “ninguém tem uma resposta precisa”, declarou.

Teixeira é um dos profissionais mais experientes, respeitados e assertivos do mercado financeiro brasileiro.  Por 18 anos foi economista-chefe do Credit Suisse no país.

Ele conversou por videoconferência com Juliano Custódio e Luis Fernando Moran, sócios na EQI Investimentos, na tarde desta segunda-feira (6).

Olhar cenários e escolher mercados

De acordo com Teixeira, a Macro Capital One monta sua carteira olhando o cenário macroeconômico para escolher os mercados a partir desta perspectiva.

Nesse período confuso e turbulento, a gestora tem feito aumento gradual das posições em Bolsa, começando pelos ativos mais defensivos.

“Ter certeza sobre algo no curto prazo é muito difícil. Nos parece que na ponta curta, é para se ficar aplicado, mas tem que ter cuidado à exposição”, disse.

E acrescentou: “já na ponta mais longa, os juros estão maiores e há incerteza fiscal quanto ao futuro. Por isso nós fomos para as utilities, proteínas e empresas ligadas a commodities.”

O setor de utilities abarca as empresas de serviços públicos como energia e saneamento básico.

A gestora conta com 21 profissionais e mantém apenas um fundo e um book único.

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Setor de serviços

Segundo Teixeira, é a primeira vez que se vê o setor de serviços atingido de maneira tão implacável por uma crise como a atual. “O impacto foi maior que na indústria”, disse.

Para ele, é importante conter a contaminação das pessoas, bem como a reincidência. Ou seja, não basta serem curadas, mas sim imunizadas para voltar à rotina.

O economista diz acreditar em uma forte contração da atividade no primeiro semestre, uma recuperação no segundo, e um 2021 de “crescimento maravilhoso da economia.”

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Câmbio

“É inegável que países desenvolvidos reajam mais às incertezas do que países emergentes. Nós vemos um processo de fortalecimento das moedas dos países mais fortes”, disse.

Assim, conforme o economista, fica difícil dizer o que vai acontecer com o Real nos próximos dois meses. “Podemos ver uma depreciação hoje, mas, adiante veremos uma moeda bem mais apreciada. Só não dá para dizer a quanto ela vai chegar”, frisou.

E acrescentou: “a capacidade de reação das economias vai depender do auxilio dos bancos centrais. Esse é o segundo maior impulso fiscal da história dos EUA”, ressaltou, em referência aos dois trilhões de dólares injetados na economia norte-americana.

Em relação ao Brasil, ele disse que “os pacotes fiscais são os mais fortes em décadas.”

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Inflação

Para Teixeira, a inflação não é problema. “O grande problema hoje é o desemprego e a atividade econômica [parada]. No cenário de hoje, o país só alcança o superávit primário em 2024”, disse.

E complementou: “se parte destes gastos temporários se tornarem permanentes, ficará ainda mais difícil”, afirmou, fazendo menção aos gastos do governo, acima do teto, em socorro à economia.

Segundo Teixeira, os devidos ajustes exigirão aumento da carga tributária. E isso é um problema. E elencou outra dificuldade: “é interessante que presidente é que briga com ministros e isso torna mais incerto o processo de recuperação e tomada de decisão.”

A fala do especialista aponta o quadro politico do país onde há desalinho entre o chefe do Executivo e seus ministros, bem como um relacionamento desgastado junto ao Congresso.