IPOs: só em outubro, 7 empresas já desistiram da abertura de capital

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Divulgação

Na semana passada, a operadora de banda larga Triple Play e a incorporadora One Innovation desistiram de realizar IPOs (Ofertas Públicas Iniciais), engrossando a fila dos cancelamentos de abertura no mercado de capitais em 2020.

O mês de outubro já soma sete desistências de abertura na Bolsa de Valores. Grandes empresas que geravam uma expectativa no mercado, como a rede varejista Havan, a Caixa Seguridade e a incorporadora You INC queriam aproveitar o momento para fazer IPOs bilionários. Mas diante das incertezas econômicas e da falta de interesse de grandes investidores, recuaram.

Com as novas desistências, já são quase 20 empresas que decidiram cancelar ou suspender temporariamente o IPO este ano. Isso significa que a janela para abertura de capital já passou? Quais são os motivos citados pelas empresas para desistir? O ano será marcado por uma grande quantidade de IPOs realizados ou de desistências de IPOs?

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Um histórico de altos e baixos

Era 30 de dezembro de 2019. No último pregão do ano, o Ibovespa marcava 115.645 pontos. Cinco empresas haviam feito IPO (Vivara, C&A, BMG, SBF e Neonergia) em 2019. Apesar de não ter sido realizada no país, a abertura de capital da brasileira XP INC foi a nona maior do mundo, captando US$ 2,25 bilhões na Nasdaq. O mercado (brasileiro e internacional) estava otimista.

Por aqui, a expectativa estava alta: em janeiro de 2020 alguns analistas chegavam a prever o Ibovespa em 150 mil pontos para 2020. O ápice foi em 23 de janeiro, na marca histórica de 119.527 pontos. A previsão da B3 era de que 20 a 30 empresas deveriam abrir seu capital em 2020. Assim, a festa de IPOs parecia estar apenas começando.

Mas, de repente, tudo mudou. O novo coronavírus se espalhou por diversos países, mergulhando em caos não só a saúde pública como as economias mundiais. As bolsas ao redor do mundo afundaram, o Ibovespa caiu a 63.569 pontos (em 23 de março, uma queda de 45% até então) e a pandemia espalhou pessimismo por todos os cantos. Os IPOs foram paralisados.

As previsões eram sombrias: queda do PIB de 9% no Brasil em 2020 (o que seria o pior desde 1900), Ibovespa a menos de 50 mil (ao patamar de 2016) e uma fuga massiva de investidores do Brasil.

A retomada do otimismo e dos IPOs

Após um período turbulento e de incertezas entre março e maio, em pouco tempo as previsões mais pessimistas começaram a se desfazer. Ainda em meio à crise do coronavíurs, o Ibovespa voltou a marcar mais de 90 mil pontos em 2 de junho. E mais de 100 mil em 10 de julho.

Apesar da crise ainda existir na saúde, o desemprego estar aumentando e empresas fechando pelo país, o mercado começou a perceber que a crise não seria tão profunda quanto era previsto em março/abril. Para se ter uma ideia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) que, em junho previu uma queda de 9,1% no PIB brasileiro em 2020, reviu a previsão em outubro, para retração de 5,8%.

Com a taxa Selic a 2% ao ano, inflação controlada e um cenário mais otimista as empresas retomaram os IPOs com força. Só neste ano 20 empresas já estrearam na Bolsa, entre nomes como Petz, Pague Menos, Locaweb, movimentando R$ 27,2 bilhões. Os maiores IPOs do ano foram o do Grupo Mateus (R$ 4,63 bi) e da Hidrovias Brasil (R$ 3,4 bi). Outras dezenas de empresas ainda estão na fila. O recorde de estreias foi de 2007, quando 64 IPOs foram feitos na B3.

Entre agosto, setembro e outubro, outro movimento também começou a ganhar corpo: a desistência dos IPOs. Empresas que esperavam captar bilhões no mercado, como a Caixa Seguridade (entre R$ 12 bi e R$ 15 bi), Havan (mais de R$ 10 bi) e a You INC (R$ 1 bi) puxaram o freio de mão. Assim, até o momento, a fila de desistências soma quase 20 companhias.

Mas, afinal, quais os motivos para as novas desistências?

As razões para as desistências

O argumento mais usado pelas empresas desistentes dos IPOs é a “conjuntura do mercado”. Ou seja, uma série de fatores que, combinados, levaram estas empresas a ter mais cautela e optar por cancelar ou aguardar alguns meses até realizar sua abertura de capital.

As motivações envolvem tanto a economia quanto a política, a saúde e as influências internacionais. Assim, uma possível segunda onda da Covid-19, excesso de ofertas no mercado, a volatilidade do mercado, questionamentos sobre a real recuperação da economia em todo o mundo, o adiamentos das reformas e as incertezas políticas no Brasil são algumas das razões que ajudam a explicar o movimento.

A You INC, por exemplo, afirmou que os pedidos de reserva por investidores não institucionais (como os de varejo, que são os pequenos investidores) superaram o valor de R$ 489 milhões. Isso sugere que a demanda que ficou aquém do esperado foi a dos grandes investidores, como bancos e fundos.

Já a Compass, holding da Cosan, queria levantar R$ 5 bilhões, mas não encontrou demanda suficiente para o preço pretendido. O BR Partners alegou que as condições de mercado ficaram desfavoráveis em setembro, o que fez o banco recuar.

A percepção de analistas é que, até o momento, a janela para os IPOs segue aberta, ainda que esteja mais estreita. No mercado já se começa a falar de uma possível bolha. Porém, o Brasil ainda tem poucas empresas com ações listas na Bolsa se comparado com os Estados Unidos por exemplo – são 429 aqui e 5 mil nos EUA.

Até dezembro, a dúvida permanecerá: 2020 será marcado como o ano dos IPOs, das desistências ou de ambos?

As empresas que desistiram dos IPOs em 2020

Empresas de diversos setores decidiram cancelar de vez ou então paralisar temporariamente a abertura ao mercado. Veja a lista:

  • Triple Play – operadora de banda larga (outubro)
  • One Innovation – incorporadora (outubro)
  • Housi – plataforma de aluguel de apartamentos mobiliados (outubro)
  • Elfa Medicamentos – fornecedora de medicamentos genéricos (outubro)
  • Patrimar Engenharia – construtora (outubro)
  • 2W Energia – comercializadora de eletricidade (outubro)
  • Havan – rede varejista (outubro)
  • BR Partners – banco (setembro)
  • Compass – soluções de gás e energia (setembro)
  • Caixa Seguridade – seguros (setembro)
  • You INC – incorporadora (agosto)
  • Riva 9 – construtora (agosto)
  • Cagece – abastecimento de água (julho)
  • Daycoval – soluções de crédito (abril)
  • Almeida Júnior – shoppings (março)*
  • Vamos – locação de caminhões e máquinas (março)*
  • Canopus Holding – incorporação (março)*
  • BBM Logística – logística (março)*
  • Prima Foods – frigorífico (março)*

*Suspensos até janeiro de 2021 de acordo com a CVM.